Vicente Amorim

pbbaixaIMG_0434.BXVicente Amorim, cineasta | por Heloisa Eterna | foto Alexandre Campbell | Fevereiro 2017

VICENTE AMORIM: CINEMA, POLÍTICA, RELIGIÃO E FAMÍLIA. TUDO JUNTO E MISTURADO

Vicente Amorim, filhos de diplomatas geralmente são obrigados a mudar de país por conta da profissão dos pais (o cineasta é filho do diplomata e ex-ministro Celso Amorim). Isso reflete de que maneira no seu trabalho?

Reflete de forma muito determinante em quem você é. Você passa a ser diferente, nem melhor nem pior, principalmente durante a juventude, porque fica desenraizado. Mudando de país a cada três anos faz com que você não se sinta, e obviamente nunca é, daquele lugar onde você está. E fora a convivência com seus pais, acaba sendo relativamente pouco brasileiro. Tanto que na minha volta para o Brasil, aos 17 anos, tinha necessidade muito grande de mergulhar na cultura brasileira. Quando comecei como assistente de direção, não escolhia os filmes que fazia, mas os que pintavam. Mas nos filmes que fiz, talvez essa busca por pertencimento — que é uma busca fundamental de qualquer personagem na dramaturgia de qualquer país — seja mais forte por conta da minha formação.

Conseguiu manter os amigos que fez lá fora?

Filho de diplomata não tem amigo de infância. Tenho amigos de depois de determinada fase, quando voltei para o Brasil. Você tem uma infância e adolescência muito diversa, o que é ótimo. Mas muito fragmentada, em todos os sentidos: emocional, cultural. Isso é muito complicado, mas também muito bom. Você passa a se sentir parte do mundo todo desde pequeno. Vários conhecidos meus, filhos de diplomatas, ficaram meio desequilibrados. Eu certamente sou também, mas é mais fácil julgar os outros.

Você tem um filho adolescente e duas meninas menores. Quais são suas preocupações com a criação deles num mundo que parece, muitas vezes, pior?

Não acho que o mundo esteja pior, acho que o mundo melhorou. Só é maior, com mais gente e mais complexo do que quando eu tinha a idade deles. A existência da internet abre portas para conhecer coisas. E também para ameaças e perigos. Mas isso é característica da vida atual. Me preocupo com excesso de exposição, com o conteúdo que estão acessando. Mas é difícil pensar no mundo, hoje, sem internet. Ele não é mais só as pessoas, a interação delas física e pessoal. É também a interação virtual. As pessoas já eram chatas e invasivas, faziam bullying. Aumentou esta possibilidade.

“Há uma questão política muito forte, uma razão para não ler os grandes jornais do país.”

Essas facilidades do mundo atual não existiam na sua juventude. O que teria feito se fosse hoje?

Teria lido mais livros e visto mais filmes, porque hoje temos mais acesso. A dificuldade que era, eu, um adolescente cinéfilo, querendo ver o filme do Dziga Vertov! (cineasta e documentarista russo, precursor do cinema direto). Se não pudesse ir na cinemateca no dia tal, tinha que esperar a sorte, dali a um ano, sei lá. Hoje, você entra na internet e quase todos os filmes estão lá. Tenho quase aflição do fetiche que as pessoas têm pelo suporte analógico. Acho um saco, tudo ruim, é elitista. Abriu-se uma porta para a cultura mundial com a internet, com a digitalização da cultura, que não havia antes.

E como você seleciona as informações que te interessam?

Com uma autoeditoria, tipo isso aqui não me interessa. Por exemplo, não leio mais jornal. Há uma questão política muito forte, uma razão para não ler os grandes jornais do país. Não toco em um jornal impresso há muito tempo. Mesmo que fossem ótimos, não tocaria, porque não precisa. Hoje em dia, os sites dos jornais são muito mais agregadores do pensamento dominante do que qualquer outra coisa. Você tem que bater o olho ali de vez em quando até para saber o que querem que você pense. Não me iludo sobre o poder que a grande imprensa tem, e que é muito importante — para o bem e para o mal. Não dá para desprezar completamente a editoria deles.

“Quando você é devoto, obviamente não quer saber das contradições.”

Qual a sua formação religiosa?

Sou ateu. Tive formação católica social, meus pais nunca foram religiosos, não foram à missa todo domingo. Fui batizado no Vaticano. Meu filho foi batizado. Acho que mais como parte de um ritual de pertencimento cultural do que religioso e de fé. Mas sou um ateu muito fajuto. Ando com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida na carteira e tenho interesse pelas religiões sincréticas afro-brasileiras. É  um certo fascínio por interações transcendentais e místicas. De ter alguma coisa que não seja só o que é palpável.

A força da freira Irmã Dulce, sobre quem você filmou, mudou seu olhar para a religião, sua crença de alguma forma?

Não. Fazer o “Irmã Dulce” aprofundou meu conhecimento. Sempre gostei de estudar os ritos e a religião católica, o cristianismo, o mundo judaico-cristão, porque se misturam. Foi interessante para conhecer a hierarquia e o funcionamento prático do catolicismo no Brasil. E isso me fez admirar ainda mais a Irmã Dulce. Ver o que ela conseguiu fazer — apesar da estrutura machista e misógina da Igreja Católica, da sociedade patriarcal baiana, brasileira. Me deu ferramentas para dirigir um filme que eu não teria feito tão bem se estivesse tomado por uma fé cega de um devoto. Porque quando você é devoto, obviamente não quer saber das contradições da pessoa.

Numa entrevista sobre “Um Homem Bom”, você disse que todo filme é político. Poderia explicar melhor? 

Se você tem crenças e convicções políticas, se você tem determinada visão de mundo ao qual você é fiel e acredita, se tem interesse real pelas pessoas que não são as que estão a cinco metros de você, você é um ser político e pratica política, portanto. Toda criação artística passa a ser política, passa a ser filtrada por suas crenças e convicções. As pessoas que se dizem apolíticas praticam a forma mais perversa de política, porque estão conscientemente entregando ao status quo, aos donos do poder, seja ele qual for, a condução da vida delas e da sociedade.

“Um Homem Bom” foi considerado um dos dez melhores filmes do ano de 2008 por The New York Observer e The Hollywood Reporter. Como foi trabalhar com o ator Viggo Mortensen?

Foi muito legal. É preciso dar garantias para os financiadores de que o investimento em um filme terá retorno. E uma das garantias é o elenco. O Viggo estava no auge da popularidade com “Senhor dos Anéis”. Mas o caminho para chegar até ele foi tortuoso. A agente do ator disse que ele não queria fazer o filme. Mas descobrimos que o Viggo não havia lido o roteiro, que era mentira da agente. Ela achava que ele não deveria fazer, naquele momento da carreira, um filme independente europeu. Uma conhecida de um produtor, e amiga do Viggo, deu o roteiro para ele. O Viggo não só gostou como já conhecia a peça, tinha feito uma audição para ela no começo da carreira. E não passou. O ator carregava essa frustração pessoal. Ele demitiu a agente.

Você foi assistente de direção de diretores estrangeiros. O modus operandi de uma produção internacional reflete no seu  jeito de trabalhar atualmente?

Do ponto de vista conceitual, não. Do ponto de vista prático, sim. Ter feito a quantidade de filmes estrangeiros que fiz, como assistente de direção, foi importante na minha formação como técnico. Me deu ferramentas para condução do set de filmagem, que uso até hoje como diretor. O que aprendi, especialmente o que aprendi em filmes estrangeiros grandes e complexos, com estrelas complicadas e geniosas, com cenas difíceis de filmar, com multidão, ação, violência e sexo… Enfim, todas as diferentes possibilidades dramatúrgicas condensadas num filme, ou nos vários filmes que eu fiz, contribuíram para eu ser um diretor melhor.

Você fez um filme diferente dos que dirigiu até hoje, o “Motorrad”, um thriller. Por que isso?

Me trouxe de volta para um tipo de cinema que sempre gostei, que sempre assisti, especialmente na minha juventude. É uma forma inclusive de lembrar que você não pode levar tudo na vida muito a sério, que isso não pode virar um peso. É um filme para quem gosta de thriller, de filme de terror e ação. Para quem gosta de cinema bem feito, mas para uma faixa dos 16 aos 20 e tantos anos. Para fazer um filme como esse tem que fazer com esse espírito, não pode vir com a cabeça velha.

“Esses atores representam tipos de atuação que, quando fazem cinema, são o personagem sem deixar de ser quem eles são.”

(Sobre Harvey Keitel, Al Pacino e Fernanda Montenegro)

Qual filme gostaria de ter dirigido?

Adoraria ter dirigido desde filmes como “A doce vida”, do Fellini, até o “Allien”, do Ridley Scott, passando por vários filmes do Howard Hawks; ou o “Stagecoach”, do John Ford,  e “O amuleto de Ogum”, do Nelson Pereira dos Santos. Dos mais recentes, adoraria ter feito “O espião que sabia demais”, porque adoro filme de espionagem. Tem um pouco a ver com a minha geração, que viveu o final da Guerra Fria. Sou muito eclético no meu gosto. Acho que se aprisionar dentro de um gênero é muito ruim.

Com quais atores você ainda gostaria de trabalhar? 
Tive uma sorte enorme que, um dos meus atores-fetiche, o Harvey Keitel, fez “Rio eu te amo”. Gostaria de fazer um longa inteiro, mas ter dirigido Harvey em apenas um dia de filmagem… Ganhei na loteria. Outro, que apesar da idade, de não estar mais no auge, seria o Al Pacino. Pelos filmes em que atuou, com quem ele trabalhou… Só para dirigir o ator de “Um dia de Cão”. E das atrizes, a Fernandona (Fernanda Montenegro). Você sente o quanto dela, ela traz para os filmes que faz. E isso é muito importante. “A falecida” é um dos meus filmes preferidos. Fernandona é foda. Esses atores representam tipos de atuação que, quando fazem cinema, são o personagem sem deixar de ser quem eles são.

Caso tivesse sido indicado ao Oscar, qual dos seus filmes teria merecido?

Teria que ser um próximo, porque os que eu fiz já não foram (risos). Evidente que qualquer um quer ter um filme indicado ao Oscar, a uma Palma de Ouro em Cannes. Mas não faço cinema pensando nisso. E espero que ninguém faça, porque deve ser uma prisão. A pessoa deve fazer porque acredita que vai funcionar para ela, sem desprezar público e crítica.

Mas prêmios trazem reconhecimento…

Parte do que paga as contas é ser reconhecido. Não é só vaidade pessoal. Você precisa de reconhecimento para as pessoas falarem: “Vou financiar o filme do Vicente”, ou “Vou chamar o Vicente para fazer esse filme”. Ter desprezo pela crítica e pelo público é quase tão perigoso quanto ser aprisionado por eles. Você precisa equilibrar isso. Agora, não pode fazer um filme pensando: “Ah, esse filme vai ser uma catapulta que vai me lançar aos píncaros da notoriedade crítica”. Ou que vai dar 20 milhões de espectadores, ou que vai bater o “Dona Flor e seus dois maridos” e o “Tropa de Elite 2” somados… Provavelmente o filme vai ficar uma merda (risos).

 

 

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