Mariza Leão

mariza 05.BXMariza Leão, produtora de Cinema e TV | por Heloisa Eterna | foto Marcos Serra Lima | Fevereiro de 2017

MARIZA LEÃO: UMA PRODUTORA COM UM OLHO NO MERCADO E O OUTRO EM JULIANNE MOORE

Mariza Leão, você é a produtora do cinema brasileiro mais consagrada no momento — os filmes “De Pernas Pro Ar” e “De Pernas Pro Ar 2” tiveram 8,3 milhões de espectadores e faturaram mais de 80 milhões de reais. Acha que encontrou uma fórmula ou nem sempre dá para prever se um blockbuster vai fazer sucesso?

Esse momento de obter grandes resultados com bilheteria começou com “Meu Nome não é Johnny”, em 2008. Aí vieram “Pernas” 1 e 2. No meio disso lancei um pequeno filme, o “Apenas o Fim, bem cult. Depois fiz “Meu passado me condena”, “Ponte Aérea” e “Meu Passado” 2. Esses filmes fizeram mais de 16 milhões de ingressos juntos. Sendo que “Ponte Aérea” e “Apenas o Fim” foram filmes de alcance de público muito pequeno, ambos com menos de 50 mil ingressos. Então, procuro manter um olho no mercado e o outro no que acho que é relevante ser feito artisticamente. Não sou escrava do produto, da obra de mercado. Equilibro a minha carteira com filmes bem pessoais. O sucesso que é dito comercial, para mim é um comercial artístico.

A exemplo de Hollywood, dá para ficar rico fazendo cinema no Brasil?

Quem escolhe fazer cinema quando é adolescente não está escolhendo uma profissão para ficar rico. O mercado audiovisual brasileiro está aquecido, há muita geração de emprego. Os profissionais passaram a ser mais valorizados. Tudo isso é muito bom. Se você é eficiente, deve ser bem remunerado. Um bom professor, um bom médico, um bom maquiador. Platão ou Sócrates dizia que uma profissão é a arte de exercer um ofício e ser remunerado por ele.

“Se a crítica for elevar um filme  à condição de uma obra-prima ou detoná-lo como um lixo, ela precisa expressar elementos de pensamento que confirmem para o leitor a razão dessa avaliação.”

Antes de produzir filmes mais populares, você fez clássicos como “O Homem da Capa Preta” e o épico Guerra de Canudos, que estiveram na seleção de vários festivais internacionais. Quais as vantagens de se produzir um filme “cabeça”, já que a bilheteria nem sempre é satisfatória?

A bilheteria não é o objetivo em si. Ela é um dado que se coloca em determinados projetos. Produzi “Em Nome da Lei, que fez 250 mil ingressos. A bilheteria não era o foco desse projeto; desde o início o DNA dele não era de um filme de multidão. O resultado de bilheteria hoje na sala de cinema não mede o alcance de um filme. Porque hoje temos o cabo, a TV aberta, o pay per view. Então, o filme que não bombou nas salas de cinema vai encontrar um público enorme em outras mídias. Pensar o significado da realização de um filme pelo resultado que ele tem sala de cinema é uma coisa de dez, 20 anos atrás.

Existe muita crítica aos filmes de riso fácil. Como aconteceu com a Chanchada, que nas décadas de 1930 e 1950 era considerada vulgar e hoje é cult, você não acha que daqui a alguns anos esses filmes serão vistos mais como uma diversão peculiar?

Concordo. Mas quando se fala em crítica, acho que o que existe são expressões de opinião, que é muito diverso da crítica. Se a crítica for elevar um filme à condição de uma obra-prima ou detoná-lo como um lixo, ela precisa expressar elementos de pensamento que confirmem para o leitor a razão dessa avaliação. Por que um filme em que o bonequinho (símbolo usado para classificar se o filme é bom ou ruim de acordo com a crítica de um jornal do Rio) dorme, ele não causa nenhum impacto sobre o cara que vai comprar ingresso? Porque o leitor não está dando a esse espaço crítico nenhuma relevância. Se desse, teria dúvidas de comprar o ingresso. Ele não tem. E por que que o filme em que o bonequinho aplaude de pé não gera motivação para levar alguém ao cinema? É esquisofrênico. Com quem falam os bonequinhos?

“Se ela espirra, meu coração bate mais rápido. […] Assisti a uma peça com ele […] Puta que pariu!”

(Sobre dois atores com quem gostaria de trabalhar)

A escolha do elenco influi no sucesso de um filme?

Totalmente. Um ator pode ser peça fundamental, mas ele não é passaporte carimbado para o sucesso de um filme. É um conjunto. Uma história, direção e o ator.

É difícil lidar com que tipo de atores?

Nunca tive dificuldade com nenhum ator ou atriz. Acho os atores seres de uma doação quase semelhante à Madre Teresa de Calcutá. No entanto, há momentos, como seres imperfeitos que somos, em que aquele momento não é o mais generoso daquela pessoa. Mas isso nunca me levou a nenhum lugar de crise com nenhum ator. Pela minha vida profissional devem ter passado algumas centenas de atores. Eu me ajoelho para eles. Me sinto abençoada por conviver com eles. Me encanto como gostam de brincar. Não por acaso, atuar em inglês é to play. Isso me comove. A entrada de um ator em cena, num teatro, numa performance, num set de cinema, é um momento em que todos nós, técnicos e diretores, devemos entender que é um momento abençoado. Obviamente — eu não sou tão poética e romântica assim… a ponto de te dizer — que há atores que podem estar, naquele momento, digamos assim, mais na chave do automático, mais na chave mecânica. Mas isso também faz parte.

Se tivesse que trabalhar com um elenco internacional, que ator e atriz estrangeiros gostaria que estivesse em uma produção sua?

Julianne Moore. Se ela espirra, meu coração bate mais rápido. Se ela peidar, vou achar graça. O olhar dela, a máscara dela me transtorna. E o Al Pacino. Assisti a uma peça com ele em Nova York na terceira fila. Puta que pariu! Fiquei apaixonada por aquelas rugas, aquelas bolsas nos olhos, por uma certa sujeira da chamada beleza de hoje, que não é beleza, é doença. Seria a minha dupla. De olhos fechados.

“A idade tirou de mim o lado selvagem do autoritarismo, mantendo ainda o fato de ser mandona, e me deu um lado mais doce.”

Dos filmes estrangeiros que você viu até hoje, qual gostaria de ter produzido? 

Teria amado produzir o “Franco Atirador“, de Michael Cimino, e “O céu que nos protege, do Bertolucci. “O Céu” é um testemunho da impossibilidade de dois seres de fato conviverem apesar de se amarem num nível… Puta que pariu!

Você já disse que é perfeccionista e obsessiva, que gosta de controlar tudo do início ao fim. É mandona?

Sou. Mas a idade — como tudo que é benéfico na vida, e acredito que envelhecer é uma coisa linda e extraordinária — tirou de mim o lado selvagem do autoritarismo, mantendo ainda o fato de ser mandona, e me deu um lado mais doce. Uma compreensão maior de que esse estado de controle não me torna tão feliz na vida pessoal. Estou ouvindo mais o outro e admitindo que é possível ser feliz com o resultado de um trabalho mesmo que ali não esteja 100% do que eu gostaria que fosse. Estou respeitando mais o fato de que dividir é, de fato, dividir.

Além de seu marido (o diretor e roteirista Sérgio Rezende), suas filhas Júlia Rezende (diretora) e Maria Rezende (montadora) participam ativamente de seus projetos.  Onde está a maior complexidade quando se trabalha em família?

O melhor de tudo é que não somos codependentes. Cada um é capaz de sobreviver profissionalmente sem a existência do outro. Se fosse uma codependência seria a pior coisa do mundo. Não havendo isso e sendo escolha, a vida é bela.

Quando você tem que dar palpites no trabalho deles…

É um momento delicado.

Mas onde você acerta mais? Direção, roteiro ou na montagem?

Roteiro e montagem. Discutir roteiro, para um produtor com o meu perfil, é participar da gestação. O produtor não é só o cara que viabiliza financeiramente um filme. Ele é isso, mas tem que estar no roteiro, na escolha do elenco, no corte final. É um casamento, e como todo casamento sujeito a chuvas e tempestades.

“Este é um momento de dizimação do mercado cinematográfico mundial, com a busca de resultados pela indústria norte-americana.”

Se levarmos em conta a quantidade de filmes que chegam ao mercado com a participação do ator Ricardo Darín, podemos concluir que a Argentina produz muito mais que o Brasil?

Não. O Brasil produz 110 filmes/ano. A Argentina talvez um pouco mais da metade que isso.

Você diria que o mercado cinematográfico no Brasil está aquecido?

O cinema norte-americano, que é hegemônico e determina tudo que há no audiovisual no planeta, trocou o risco da originalidade pela repetição das franquias. E para ser um fenômeno arrasa-quarteirão, não bastava fazer um filme sobre o Batman. Mas juntar num mesmo filme Batman com Super-Homem. Este é um momento de dizimação do mercado cinematográfico mundial, com a busca de resultados pela indústria norte-americana.

Mas o nosso cinema vai muito bem, obrigado?

Não, claro que não. Produzimos pouco mais de 100 filmes por ano. E antes, com a projeção em película, era mais complexo para o exibidor. Com a projeção digital, a programação não é mais vertical, ela foi quebrada. Isso quer dizer que o poder foi deslocado do distribuidor para o exibidor, que tem nas mãos o pelotão de fuzilamento à sua disposição. E esse é um momento de crise desse equilíbrio de poder entre exibição, distribuição e produção. Temos um parque exibidor no Brasil de mais ou menos 3.500 salas. Filmes estrangeiros entram na maioria. Um só filme chega a entrar em 1.500 salas.

Por que razão você partiu também para a TV, produzindo as séries “Meu Passado me Condena” e  “Acerto de Contas”, dirigidas no canal Multishow por Júlia Rezende e José Joffily; e “Questão de Família“,  por  Sergio Rezende no GNT? É mais fácil fazer TV do que cinema no Brasil?

Definitivamente, não. Eu não quero produzir programa de aventura, culinária, viagem, comportamento. Quero produzir ficção. E nos canais a cabo os orçamentos são muito aquém do que deveriam ser. É sempre um sufoco. Isso me incomoda. É claro que é um início, é uma abertura de mercado de trabalho para milhares de técnicos, roteiristas, diretores. É bem-vindo. Espero que isso gradativamente alcance uma correspondência financeira e econômica bacana. Além do que, estamos engatinhando na produção de séries. Estamos começando agora. Só com muita produção, muito exercício, a gente vai chegar num lugar competitivo.

“Não sou um espectador a menos. […] Para me atrair tem que ser algo muito especial.”

O que você pensa sobre os serviços on demand como Netflix? Tira as pessoas das salas de cinema?

Dizer que não tira é uma arrogância. Mas tira quem se coloca “tirável” (risos). O jovem que está querendo sair da casa dos pais, que não aguenta aquela relação 24h, esse cara quer sair de casa de qualquer maneira, ir para o shopping, para o bar. A idade adulta já te coloca mais confortável dentro de casa, com a TV, os serviços on demand, com a qualidade de imagem… Quem já não é “tirável” fica em casa.

E por que uma mulher do cinema vai tão pouco ao cinema?

Porque eu prefiro ler. Gosto mais do que ver filmes. Uso meu tempo para ler como uma louca. E no audiovisual sou muito seletiva. Na leitura sou também seletiva, mas não troco o estado de leitora pelo de espectadora.

Então você é um espectador a menos no cinema?

Não sou um espectador a menos, mas a minha geração, tenho 63 anos, tende a ser muita seletiva. Já vi muita coisa. Para me atrair tem que ser algo muito especial.

E o que te faz sair de casa?

Uma obra que esteja dialogando com as minhas questões internas. E não gosto de pipoca…Odeio cheiro de pipoca, as salas de cinema têm sempre cheiro de manteiga. Então, a sala de cinema não me atrai por causa da pipoca. Sou uma antipipoca (risos). Me atrai, por exemplo, um filme que numa tela imensa vai ter um significado diferente do que vou ver numa tela pequena. Meu marido comprou um telão com projetor, fizemos aqui com seis amigos uma projeção de “O Bebê de Rosemary” (de Roman Polanski). Jantamos uma massinha… Uau! Que privilégio.

 

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