Maria Augusta Ramos

Maria Augusta Ramos, documentaristaMaria Augusta Ramos, cineasta | por Heloisa Eterna | foto Alexandre Campbell | Junho 2018

MARIA AUGUSTA RAMOS: EM 137 MINUTOS, CINEASTA CONTA A HISTÓRIA DE UM JULGAMENTO QUE PAROU O BRASIL

Para realizar “O Processo”, você passou vários meses em Brasília acompanhando cada passo do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Circulou por corredores do Congresso Nacional, filmou coletivas de imprensa, registrou as votações na Câmara dos Deputados e no Senado e testemunhou bastidores nunca mostrados em noticiários de cadeia nacional… * O filme recebeu Prêmio de melhor longa-metragem internacional no Festival Documenta Madri; Prêmio Silvestre e Prêmio do Público de melhor longa-metragem no Festival Indie Lisboa; e Melhor Longa-Metragem na Competição Internacional do Festival Internacional de Documentários Visions du Reel em Nyon.

O cinema não tem a mesma função que o jornalismo, que acho essencial, fundamental. O cinema tem que ir além, ter a capacidade de rever um momento histórico e refletir sobre ele. O que o jornalismo não pode fazer, nem se quisesse. No caso, houve escolha da grande mídia em retratar uma versão da história. E isso é ruim, muito ruim. É preciso que haja autocrítica da esquerda, da direita e da grande mídia para a gente tentar superar isso tudo.

Acredita ter conseguido mostrar uma outra narrativa, diferente dos meios oficiais, e radiografar as relações de poder que estavam envolvidas?

Acho que sim. O filme preenche essa lacuna.E humaniza os personagens. Todos eles. Tanto da direita quanto da esquerda. A presidente Dilma, que foi extremamente demonizada. Como nos meus filmes anteriores, a gente tem que entender que as pessoas são, também, indivíduos. O filme não se propõe só a um entendimento racional, intelectual daquilo. Tem uma relação emocional com os protagonistas. A gente viveu, como cidadão brasileiro, uma relação emocional com isso tudo.

“Me instiga o teatro da Justiça […], somado ao teatro da política.”

Você partiu para Brasília achando que filmaria “O Processo” durante apenas duas semanas. Não acreditava que haveria impeachment da presidente Dilma Rousseff?

Não. Eu e a torcida do Flamengo inteira… Da esquerda (risos). Infelizmente, aconteceu. Resolvi ficar em Brasília e retratar o impeachment, focando no processo jurídico-político que se deu no Senado. É claro que a gente pode abordar o impeachment de várias maneiras, ângulos. E não só em Brasília. Houve a ocupação dos secundaristas pelo Brasil, movimentos sociais, existiu um grande questionamento. Até mesmo na Câmara dos Deputados. Pelo fato de que me instiga a questão do teatro da Justiça – digo isso sem ser pejorativa –, somado ao teatro da política, que são retratados no filme, decidi ficar e desvendar esse mundo.

A partir daí…

Fui à procura desses protagonistas e antagonistas. Parlamentares e advogados da defesa da presidente Dilma, e da acusação. Tinha que registrar esse processo dos dois pontos de vista, dando voz às possíveis narrativas. Claro, nesse caso são mais de duas narrativas. Nesse sentido acho que o filme vem preencher uma lacuna, que é dar voz aos argumentos da esquerda contra o impeachment, que até agora, ou até realização do filme, não aconteceu.

“Um documentário tem que ser capaz de ir além da minha visão como indivíduo.”

Maria Augusta Ramos, documentarista

A resistência por parte da direita em te dar acesso aos bastidores tem a ver com uma posição política sua?  *A diretora teve acesso único à Dilma Rousseff e sua defesa. Filmou reuniões e discussões a portas fechadas com a presença do advogado José Eduardo Cardozo, sua equipe e os senadores e assessores da liderança do PT e da minoria no Senado.

Não sei se foi por uma posição política. Não houve essa transparência. O acesso aos bastidores não foi dado. Mas pude filmar mais de perto alguns senadores que foram a favor do impeachment, como o Cássio Cunha Lima, a advogada Janaína Pachoal (autora do pedido de impeachment junto com os juristas Miguel Reale Jr. e Hélio Bicudo). Então, mesmo tendo uma posição política, sou um ser político, e minha visão é revelada em todos os meus filmes. É importante entender a proposta do meu cinema. Não é um cinema panfletário. Meus filmes propõem retratar a realidade. Seja um processo jurídico, um momento histórico ou uma instituição na sua complexidade, nas suas diversas narrativas. Não acho que meus filmes tenham claramente uma visão política de esquerda. Dentro da proposta do cinema reflexivo, um documentário tem que ser capaz de ir além da minha visão como indivíduo.

Existe filme isento?

“O Processo” é subjetivo. Não existe filme isento, imparcial. Mas a minha proposta de cinema faz com que o produto final seja consequência de um processo cinematográfico de filmagem, de edição de uma obra aberta, onde o próprio público possa se questionar, repensar, reavaliar tudo que a gente viveu, esse momento histórico do processo jurídico-político. E que possa tirar suas próprias conclusões, usar sua imaginação durante o filme. Preencher as lacunas, porque o filme não dá conta de tudo. O objetivo do meu cinema, do cinema reflexivo, é questionar.

“É um posicionamento politico e cinematográfico do diretor e dos roteiristas. O tipo de cinema que eles querem fazer.”

(Sobre “O Mecanismo”, série da Netflix)

A série “O Mecanismo” (Netflix), do cineasta José Padilha, gerou polêmica, acusada de manipulação e de ter contado uma história antes dela terminar, e a poucos meses de uma eleição altamente polarizada. O que acha disso?

Não vi a série, ouvi falar. Não sei se esta é a questão. Talvez esta seja uma questão que se coloque, sem dúvida. Mas acho que tem uma questão de proposta de cinema. Tem uma questão ética aí. Mesmo que se proponha a fazer um filme de ficção, que seja um drama e não um documentário, tem que ter um comprometimento ético com a realidade. Não acho que as escolhas que foram feitas em “O Mecanismo” se deram porque a série foi feita antes da investigação Lava Jato chegar ao fim. A questão é mais complexa do que isso. É um posicionamento politico e cinematográfico do diretor e dos roteiristas. O tipo de cinema que eles querem fazer.

 

Seu filme tem mais de duas horas, mas foram captadas 450 horas de imagens. O que era indispensável para contar a história?

O que está no filme (risos). Uma edição, um filme inteiro, envolve escolhas. No corte, na escolha de protagonistas. Cada corte é estético e ético. Estético porque tem uma função dentro de uma estrutura formal, de desenvolvimento de uma cena por exemplo. ”O Processo”, como nos meus outros filmes, é estruturado como uma ficção. A gente trabalha cena a cena. E vai depurando. Eu e minha montadora, a Karen Akerman, decidimos que o filme seria cronológico. Mas qualquer decisão, tipo essa frase entra ou não, a duração de um take, são decisões éticas e estéticas. Ética porque é ética. Porque eu jamais faria algo que seria contrário aos fatos. Claro que não existe uma única verdade. Mas existe a verdade dos fatos. Não vou editar algo que não vá de encontro ao que realmente aconteceu.

“Minha visão do sistema de justiça e do impeachment se dá, e é revelada, em 137 minutos.”

“O Processo“ dá continuidade às abordagens sobre o sistema judiciário brasileiro realizadas por você em “Justiça” (Grand Prix no Festival Visions du Réel, Suiça, 2004), “Juízo” (Festival de Locarno, Prêmio da Crítica no Dok- Leipzig, 2008) e, num olhar complementar, Morro dos Prazeres (Melhor Direção, Fotografia e Som no Festival de Brasília, 2013). Por que o tema é recorrente nas suas obras?

Me interessa retratar as relações humanas, as de poder e as sociais. Como o indivíduo interage com o outro, o meio em que ele vive: sociedade, família, instituições. Me interessa registrar a relação pai e filho; juiz e acusado; policial e comunidade. Registrar como as falas se dão. Refletir sobre a sociedade brasileira através do registro dessas relações. Meus filmes não têm o recurso da entrevista, porque o que me instiga são essas interações humanas. Isso me possibilita fazer o cinema que quero fazer. De observação.

Você diria que acredita na Justiça brasileira?

Digo: vejam meus filmes. Minha visão do sistema de justiça e do impeachment se dá, e é revelada, em 137 minutos de “O Processo”. Ou em 100 minutos no caso do “Justiça”. Responder a essa pergunta é resumir em uma, duas frases a minha visão do sistema judiciário. Não consigo fazer isso. Para retratar esse sistema e o impeachment com a complexidade que lhes é inerente, eu preciso fazer um filme. Seria uma redução da realidade. É isso que tento evitar. Se existe uma proposta no meu cinema, é não espetacularizar, não ridicularizar, não banalizar.

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