Manuel Arriaga

Manuel_Arriaga_sem_credito_fotografoManuel Arriaga, escritor português (Agência VB&M)| por Heloisa Eterna | foto Tiago Figueiredo | Julho 2017

MANUEL ARRIAGA: ESCRITOR DIZ QUE BREXIT E SURGIMENTO DE TRUMP MOSTRAM QUE É PRECISO ATUALIZAR NOSSA FORMA DE FAZER POLÍTICA

Manuel Arriaga, por que razão os políticos nunca vão nos representar, como você afirma em  “Reinventando a democracia”? (Além de Portugal, o livro foi publicado no Reino Unido e na Grécia).

No livro exploro um total de dez razões pelas quais isso passa, mas uma delas é certamente a forma como escolhemos os políticos: as eleições são uma péssima maneira de decidirmos, coletivamente, quem queremos a governar-nos pelos próximos quatro, cinco anos. Quando votamos, decidimos com base em pouca informação, refletimos pouco (e sozinhos: tipicamente não discutimos o assunto com outras pessoas) e tendemos a fazer escolhas com base no carisma de um candidato e/ou fidelidade a um partido. E qual é o resultado? Que somos alvos fáceis para as cada vez mais sofisticadas máquinas do marketing político.

Acredita que políticos, em geral, são insensíveis e só pensam em si mesmos?

Há aqui pelo menos dois fatores em jogo. Primeiro, a maioria dos políticos, por causa do privilégio em que vivem e da diferença abismal que separa as suas experiências cotidianas do grosso da população, têm muita dificuldade em se colocar nos sapatos do cidadão comum. Segundo, o “jogo” político-partidário tenderá a fazer com que as pessoas que chegam ao topo dos partidos sejam muito orientadas para promover as suas carreiras e interesses. Ora, isto não são boas notícias para nós cidadãos.

“Nós temos preconceitos horríveis a respeito da pessoa comum, que ela é estúpida, […] não se interessa pelos temas importantes.”

Você já disse que, em geral, os cidadãos não têm tempo, informação e condições ideais para refletir e debater importantes questões políticas. Como mudar isso?

Criando as instituições certas. Nós temos preconceitos horríveis a respeito da “pessoa comum”, que ela é estúpida, não sabe e/ou não se interessa pelos temas importantes. Ora, é um erro colossal pensar nesses termos. Temos de compreender que isso acontece porque as instituições que temos (as quais ditam que expressar-se politicamente significa simplesmente votar cada quatro, cinco anos) convidam a essas atitudes. Hoje em dia sabemos que as pessoas se portam de forma diferente quando criamos as instituições certas para elas participarem politicamente, de forma informada e refletida.

Países como Islândia, Canadá e Austrália têm as chamadas assembléias de cidadãos. Poderia explicar como funciona esse sistema e se já acontece em Portugal?

As assembleias de cidadãos exemplificam na perfeição a enorme promessa de criarmos novas instituições políticas. Numa assembleia de cidadãos, reunem-se algumas centenas de cidadãos escolhidos por sorteio de forma a espelharem a composição demográfica (em termos de gênero, idade, grau de educação, etc.) da população. É pedido a estes cidadãos que tomem uma decisão sobre uma questão importante (por exemplo, nas províncias canadenses da British Columbia e do Ontario em 2004 e 2005 foi-lhes pedido que redesenhassem o sistema eleitoral usado nas eleições nessas províncias). Os cidadãos começam por assistir a palestras e participar em workshops com vários especialistas sobre o tema, de forma a apreenderem a informação necessária. Estudam e comparam as alternativas. Em seguida, entram numa fase de deliberação em que aprofundam a discussão (com a ajuda de facilitadores) e elaboram uma solução concreta para o problema que lhes foi apresentado. Em Portugal, organizamos em Janeiro deste ano o primeiro processo deste tipo. (Informações na página Fórum dos Cidadãos).

“Problemas estruturais nas nossas democracias se tornaram evidentes.”

(Sobre acontecimentos como Brexit e eleição de Trump)

Segundo você, dificilmente Portugal poderia escolher melhor hora para acordar para uma prática mais ativa da democracia. O que significa isso exatamente?

O ano passado trouxe o Brexit (referendo que aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia) e a eleição de Trump. Dificilmente os problemas estruturais na forma como as nossas democracias funcionam se poderiam ter tornado mais evidentes. É quase como se o mundo nos estivesse a tentar despertar para o fato de precisarmos atualizar a forma como fazemos política.

Com a febre das redes sociais, em especial o Facebook, as pessoas costumam acreditar que são engajadas politicamente. Isso é um fato ou mera ilusão?

As redes sociais têm certamente um papel importante na partilha de informação e pontos de vista. Permitem aos cidadãos sentir-se mais politicamente envolvidos e, em certa medida, ser parte ativa do debate político. É difícil ver isso como algo negativo. No entanto, e como se tornou evidente na campanha presidencial norte-americana, os problemas surgem porque as ferramentas tecnológicas não convidam à análise e reflexão. Com facilidade se tornam veículos para a propagação de informação falsa.

“Quer ver algo de perigoso na Europa em 2017? Olhe para o impacto da crescente precariedade laboral.”

Em artigo para um jornal, você disse que “o terrorismo não nos matará, mas nos manterá entretidos enquanto as verdadeiras ameaças que enfrentamos se encarregam disso”. Quais seriam essas ameaças? 

Pensava, em particular, na degradação ambiental e nas alterações climáticas. Desde que esse artigo foi escrito, adicionaria a essa lista as políticas xenófobas e de promoção do ódio que parecem ter-se banalizado em tantos países ditos “desenvolvidos”.

Você tem medo de ser uma vítima do terrorismo simplesmente por circular por ruas de um país europeu?

Claro que não. Só a obsessão midiática com estes ataques – estatisticamente irrelevantes em termos de como e quando se morre na Europa – poderia levar alguém a fazê-lo. Quer ver algo de perigoso na Europa em 2017? Olhe para o impacto que a crescente precariedade laboral, os cortes nas prestações sociais e a gradual degradação dos serviços públicos têm na saúde e na qualidade de vida de centenas de milhões de europeus. O verdadeiro terrorista é um indivíduo engravatado a pregar “austeridade e cortes” –palavras que, claro, só se aplicam às necessidades dos comuns mortais e nunca às elites.

O que mais lhe causa angústia nos dias de hoje?

A possibilidade de desperdiçarmos esta oportunidade para mudar as coisas.

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