Luiz Loures

Loures2.PB.BXLuiz Loures, diretor executivo UNAIDS | por Heloisa Eterna | foto UNAIDS

LUIZ LOURES: MÉDICO VIU A EXPLOSÃO DE UMA EPIDEMIA E HOJE PREVÊ SEU FIM

Luiz Loures, acabar com a Aids até 2030 é meta do UNAIDS, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS. Até lá, a prevenção e tratamento vai evitar que 28 milhões de pessoas e quase seis milhões de crianças sejam infectadas. Qual o maior desafio?

É a complacência. É a percepção de que a Aids acabou. A complacência leva a menos interesse político, a menos recursos financeiros, a menos mobilização da sociedade. Esse é o maior desafio, sem nenhuma dúvida.

E como se dá essa complacência?

É a posição da sociedade hoje de achar que a Aids não existe mais. De que o problema está resolvido porque você tem tratamento. Para poder reverter essa situação temos que retomar a mobilização social, todos têm que entender que uma pessoa que contraiu o HIV, se começa a se tratar cedo, vai ter a mesma expectativa de vida de alguém que não tem o vírus. Não tenha dúvida. O tratamento possibilita que as pessoas voltem ao trabalho, as famílias sejam reconstituídas, as crianças voltem à escola… É um grande progresso, mas não significa que a epidemia acabou. Então o primeiro passo é esse, um novo entendimento. Nós temos agora que usar o progresso para ir até o fim da epidemia. Há um paradoxo: as pessoas com o vírus estão vivendo mais, mas ao mesmo tempo observamos crescimento nas novas infecções pelo HIV. Principalmente entre os grupos vulneráveis. Essa contradição tem que ser resolvida para que a gente avance.

Acredita que os jovens, por não terem vivido o drama dessa geração, encaram o tema com descaso?

Sem dúvida há o que em inglês chamamos de generation gap. Uma geração que viu a Aids no seu começo e viveu o seu momento mais dramático, mais duro, e as gerações que vieram depois. Essa diferença existe do ponto de vista do conhecimento, e principalmente em relação à percepção do risco. Existiu um momento na história da Aids em que os jornais, a televisão, as headlines, eram sobre o impacto da Aids em personalidades, indivíduos e sociedades. Felizmente esse não é mais o caso. Mas isso tem levado a uma percepção de risco que não é correta. Principalmente a turma mais jovem pensa que acabou. O que não é real. O vírus da Aids continua atuando, tomando qualquer oportunidade para ser transmitido. Baixou a guarda em relação ao contato sexual, ao uso de drogas… O resultado é o HIV. E tem alguns fatores que complicam mais, como a violência doméstica, situações onde a mulher tem menos controle em relação ao seu corpo e à relação sexual.

Qual a sua missão nessa batalha?

Minha responsabilidade nas Nações Unidas é a coordenação internacional da resposta à epidemia de Aids. Levar informação correta sobre o que acontece, mas fundamentalmente trabalhar para mudar esse panorama com os governos, a sociedade civil, com o setor privado e com as pessoas afetadas para que a gente construa um novo pacto. Um pacto que foque no risco permanente da infecção pelo HIV, e ao mesmo tempo garanta que o acesso ao tratamento é igual para todos.

“Não esperava que isso acontecesse durante a minha carreira: ver o começo e agora estar discutindo que é possível chegar ao fim. Isso é fascinante.”

Muitas hipóteses foram formuladas sobre a origem do HIV. Qual é a mais plausível?

Tem um monte de estudos e análises retrospectivas e mais históricas com relação à epidemia. Algumas coisas parecem que são certas… Aonde começou, provavelmente no continente africano… Existem algumas hipóteses da relação, transmissão animal-humano, dos macacos.  Tem evidências nesse sentido. Mas a realidade é que se tornou muito rapidamente uma epidemia global, uma pandemia. E a questão da origem passa a ser só uma questão de interesse histórico. É mais importante focalizar na realidade atual. Não me preocupa mais a questão da origem, mas sim chegar ao fim da epidemia. Não esperava que isso acontecesse durante a minha carreira: ver o começo e agora estar discutindo que é possível chegar ao fim. Isso é fascinante.

O senhor já disse que a África, uma das regiões mais afetadas, pode surpreender, e trazer, de alguma forma, a solução para a epidemia. Mas é um continente tão pobre e sem recursos… Como isso se daria?

A esperança hoje vem do continente africano, onde está a maior parte das pessoas em tratamento. Um país como a África do Sul, que continua sendo o mais afetado, trata mais gente do que qualquer outro país no mundo, quase 4 milhões de pessoas. Com isso, a experiência, o conhecimento e a mobilização social é  mais forte nos países africanos. E mais do que isso, a África está nos dando o caminho para chegar ao fim da epidemia. Do ponto de vista da disponibilidade de recursos, são países pobres e alguns considerados de médio ingresso, mas que também têm seus problemas econômicos. Então, é claro que a solidariedade internacional é fundamental. A África vai nos levar ao fim desta epidemia desde que a solidariedade exista.

O papel do Brasil foi importante nesse processo…

O Brasil tem um papel histórico. Foi o primeiro país a tratar pacientes com a HIV fora os países desenvolvidos, mais ricos. O Brasil foi o país, em muitos aspectos, que mudou a resposta à epidemia. Foi o primeiro país do sul que tomou uma decisão política, econômica e social de responder à epidemia como é necessário. E muitos países no continente africano seguiram esse caminho.

Quantas pessoas convivem com o vírus da HIV atualmente no mundo e quantas convivem já com a doença desenvolvida?

Cerca de 38 milhões convivem hoje com o HIV, e por volta de 18 milhões estão em tratamento. Agora, tem um grande número de pessoas que não têm conhecimento do seu status. Ou seja, 40% das pessoas que vivem com o HIV não sabem que têm o HIV. Mas hoje essa diferenciação entre quem tem o vírus ou a doença importa menos que no passado. Porque antes tratávamos só gente que estava com a doença mais avançada. Hoje tratamos qualquer pessoa que tenha o HIV. Parte do desafio é colocar mais 20 milhões de pessoas em tratamento. Tenho que tratar todo mundo, mas existem essas pessoas que não têm conhecimento da sua situação. E isso é superimportante principalmente em relação aos jovens. Se submeter ao teste da Aids hoje pode fazer uma diferença fundamental entre ter uma vida normal, se a pessoa tem o HIV, ou não.

“Direitos humanos não podem ser submetidos à moral e à cultura.”

Mundialmente, a epidemia fez quantas vítimas desde que tomamos consciência dela nos anos 1980/90?

Quase 40 milhões. Isso é um número brutal.

De acordo com o UNAIDS, até 2015, 36 países barravam a entrada ou permanência em seu território de pessoas vivendo com HIV. Aqui na América do Sul, apenas o Paraguai. Apesar de toda informação que existe hoje, a que se deve essa postura?

Não existe nenhuma razão científica, sem dúvida nenhuma. Em alguns países, acho que seja a desinformação. Mas, em grande parte, o problema é simples: discriminação.

Por que o estigma ainda existe, apesar do comprovado conhecimento científico sobre os meios de contração doença?

A partir do momento que temos o tratamento, além da complacência, a discriminação e o estima passam a ser o problema mais importante que temos para avançar. Porque isso faz com que as pessoas discriminadas não vão aos serviços de saúde, faz com que têm menos aderência à prevenção. E vivam com medo. A discriminação leva ao medo. E medo não ajuda do ponto de vista de saúde pública. A pessoa com medo não participa, entendeu? A questão de direitos humanos… E a questão de acesso à prevenção, ao tratamento para o HIV é um direito humano. Independente de orientação sexual, independente de tipo de trabalho, se é uma trabalhadora sexual ou não, independente se usa droga ou não… É um direito humano. Todos devem ter acesso da mesma forma. E direitos humanos não podem ser submetidos à moral e à cultura. Essa é a realidade.

“Nesse momento conto mais com a vacina social. Com a mobilização da sociedade para ir à frente. Independente de ter uma vacina biológica.”

Quando atuava como médico, o que mais tocou o senhor ao tratar de pessoas com a doença? 

Muitas vezes tive que ficar no hospital à noite, depois do meu período de trabalho porque não conseguia passar meus casos. Houve uma época que, mesmo dentro do serviço de saúde, o medo era predominante. O que mais me marcou foi o medo da epidemia.

 A erradicação da doença depende da descoberta de uma vacina. O senhor é um otimista?

Sou realista. A pesquisa continua, mas infelizmente acho que não tem os fundos necessários, teria que ter mais investimento na busca da vacina. Nesse momento conto mais com a vacina social. Com a mobilização da sociedade para ir à frente. Independente de ter uma vacina biológica, é possível avançar numa resposta e levar essa epidemia ao fim, mesmo que não exista uma vacina.

O senhor tem medo da morte?

Acredito na Ciência, que as possibilidades são cada vez maiores… Mas prefiro combater, trabalhar contra a morte, principalmente das pessoas que eu cuido. Penso muito pessoalmente, mas faço tudo para que não aconteça. O meu trabalho principal, em última análise, é continuar salvando vidas. Independente de onde estou hoje.

Estudiosos da Ciência muitas vezes são agnósticos ou até acreditam em alguma força superior. E o senhor?

Qualquer médico ou profissional que trabalhe com a vida de outras pessoas, acho que tem que ter alguma coisa a mais para… seguir.

 

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