Leonardo

MILAN, ITALY - JANUARY 30:  Coach Leonardo of FC Internazionale Milano looks on ahead the Serie A match between FC Internazionale Milano and US Citta di Palermo at Stadio Giuseppe Meazza on January 30, 2011 in Milan, Italy.  (Photo by Tullio Puglia/Getty Images)Leonardo de Araújo, ex-jogador de futebol | por Heloisa Eterna | foto Tullio Puglia , Getty Images

LEONARDO: HOMEM-FAMÍLIA, ELEGANTE, CERTINHO E AMIGO DO VIZINHO

Leonardo, dos jogadores de futebol, você sempre foi considerado um dos mais elegantes. O que te despertou para moda? 

Meu armário é branco, azul escuro, preto e cinza. Não sei se nasce do meu modo de ser ou da conveniência da combinação. Sou um pouco minimalista. Nunca tive preocupação em estar na moda ou seguir a moda. Não posso negar que a passagem pela França e Itália acaba te levando a se relacionar com pessoas do segmento moda. Esse cruzamento mais forte foi quando a grife Dolce & Gabbana fez um acordo com o Milan, onde trabalhei. Dali nasceu uma coisa mais dedicada a isso, porque fiquei amigo do Domenico Dolce. Segui minha linha, mas fiquei um pouquinho Dolce & Gabbana.

Jogadores de futebol, por conta da fama e dinheiro, são muito assediados pelo público feminino. Isso acontece também na Europa? Como você lida com essas situações?

Acontece, mas acho que vivi uma vida muito protegida. Comecei a namorar aos 18 anos, me casei aos 23. E fiquei no primeiro casamento até depois da minha carreira. Tive uma pausa, e me casei de novo. Acho que fui protegido nesse sentido porque sou muito família. Isso para mim sempre foi muito tranquilo.

Sente falta do seu país?

Isso daí é o assunto mais sensível. Há pouco tempo ultrapassei em anos vivendo fora os anos que vivi no Brasil. Saí pela primeira vez em 1991. Já tinha superado o fato de estar fora, estou estabelecido na Itália. Mas sinto mais falta do Brasil hoje do que dez anos atrás. O Neruda (o poeta chileno Pablo Neruda) dizia que o corpo dele no país natal dele era diferente.

Houve um momento de depressão, não foi? 

Coincidiram muitas reflexões juntas, foi também um momento difícil no nosso país. Quando se chega aos 30 anos é um marco para o desportista, você está perto de terminar a carreira, é menos competitivo. Acabei me sentindo mal em função dos problemas do parceiro; de ver a falta de oportunidade de muitas pessoas num contexto geral. Não sei se podemos chamar de depressão. Não precisei de nada forte, precisei do suporte da família e de pausa para refletir. Isso foi no finalzinho dos anos 1990, estava jogando no Milan. Então, vivi um profundo questionamento que me levou a um certo desequilíbrio. Mas dali nasceram outras coisas, como a nossa Fundação (a Gol de Letra, com o amigo e ex-jogador de futebol Raí), uma referência hoje no Terceiro Setor.

“Vivo futebol todo o dia, sei tudo, acompanho tudo, mas jogar…”

O avanço da idade mexe com você de alguma forma?

Sou um cara muito racional. Isso me ajuda em muitas situações, e me leva também a uma perda de energia. Claro, porque tem certas coisas que é melhor a gente não pensar. Nunca tive preocupação com o fato de ficar mais velho. Houve fatores fortes que me fizeram pensar mais. Como a doença da minha mãe, que esteve perto da morte. Naquele momento comecei a questionar o envelhecimento do corpo. E coincidiu com o momento em que tive outros dois filhos; já tinha três filhos do primeiro casamento. Essas coisas começaram a me fazer pensar no que é a idade, no que pode ser.

Medo da própria morte?

Não vou dizer que isso me deu medo da morte, porque minha mãe é espírita. A morte é muito trabalhada no espiritismo. Não sou praticante, mas acabei adquirindo os conceitos. Mas desenvolvi uma preocupação, e penso: “Se me acontece agora algo fulminante, deixo dois filhos pequenos”. Por isso, hoje cuido mais da minha saúde do que cinco anos atrás. Dirijo com menos velocidade.

Você tem jogado futebol?

O futebol jogado está completamente de lado (risos), nem me lembro mais a última vez que joguei futebol, sinceramente. Vivo futebol todo o dia, sei tudo, acompanho tudo, mas jogar, eu… Realmente nem nas despedidas dos amigos ou jogos beneficentes. Vou aos eventos, mas dificilmente jogo. Acabei a carreira com algumas contusões, meu joelho direito… Meu esporte hoje é a bicicleta ergométrica, a natação, é geriátrico (risos).

Por quem você gostaria de ter sido treinado?

Fui treinado por quem hoje considero ter sido o melhor: Telê Santana. Criou-se uma relação pessoal muito forte e louca, porque era uma relação sem falar. Ele não me dizia: “Quero que você faça isso ou aquilo”. Não existia elogio, briga. Não existia troca, até porque a hierarquia era muito demarcada. Ele era o grande chefe, aquela coisa meticulosa, disciplinada, aquela ideia de futebol puro, de fazer o que era melhor para o time, para a beleza do espetáculo. Eu era jovem… Mas construímos juntos. Nunca mais tive um treinador com incidência tão forte sobre mim.

“O Cristiano Ronaldo e o Messi talvez sejam um pouco o espelho do que foi a mudança de geração. A geração dos anos 1990/2000 era um pouco exagerada.”

Quem é o maior jogador do mundo hoje? 

O Messi. É o jogador mais determinante em um time. Se formos analisar o que o Barcelona fez e o quanto ele influenciou, é um percentual muito alto. Ele é uma genialidade sem ter físico para isso nem maturidade. É repetitivo, faz a mesma coisa várias vezes. E não conseguem parar o Messi.

Alguns craques ficaram conhecidos por fugirem dos treinos, como Ronaldinho Gaúcho, por exemplo. É preguiça ou se acham melhores que os colegas? Você chegou a lidar com isso quando era técnico do Milan ou da Internazionale?

Muitas vezes. No mundo do futebol, você depende muito do físico. O lado genial desde tipo de personagem, não digo nem só de atleta, tem que ser levado em consideração. A minha gestão é em função disso. Não é dizer: “Olha, Ronaldinho, busca os filhos na escola, volta para casa e dá uma dormidinha”. O lado genial, que faz ele ser o Ronaldinho, não cabe dentro de um personagem que sou eu, todo certinho, da família, que é amigo do vizinho, que varre a casa. Ele poderia ter feito mais do que fez dos 23 anos aos 27. Só que fez menos, porque não conseguiu cumprir todos esses pré-requisitos que Messi e Cristiano Ronaldo cumprem. E ser o que eles são. Quem sabe por 12, 15 anos.

Isso tem a ver com gerações?

Acho que sim. Você não via Zico, Cruyff, esses caras se comportando assim. Existia um estereótipo naquela época que não cabia. Antes o cara usava chuteira preta. Hoje um pé de cada cor. O Cristiano Ronaldo e o Messi talvez sejam um pouco o espelho do que foi a mudança de geração. A geração dos anos 1990/2000 era um pouco exagerada. Isso acabou impossibilitando vários jogadores com o talento do Messi e do Cristiano de serem por muito tempo, como os dois ainda são, o que os dessa geração foram por somente três anos. Esses atletas mais novos, vendo o fracasso da outra geração em não conseguir durar muito tempo, agiram de forma diferente. Caras que treinam, se dedicam, têm consciência do corpo, do personagem.

O que foi determinante para fazer com que você passasse de jogador a dirigente de grandes times internacionais, como Milan e PSG?

Foi o Adriano Galliani (ex-vice-presidente do Milan). Mas sempre gostei de gestão, de transformar ideias em projetos, da construção da estrutura de pessoas. Fiz uma imersão, mesmo enquanto jogador, por várias áreas do clube. A gente criou uma relação bacana. Aconteceu no final da minha carreira. Acabei me transformando num assistente do Galliani, participando de várias decisões. Tendo oportunidade para criar projetos como a Fundação Milan, que nasceu da minha ligação com a Fundação Gol de Letra. E fazia o mercado contratando jogadores, construía internamente uma linha de comunicação e de marketing. Foi uma universidade prática, essencial.

“Não tenho ambição de ser presidente da CBF. Hoje, não acredito que alguém nesse esquema possa realizar nada com uma real possibilidade de construir. Acho impossível.”

A corrupção é algo sistêmico não só na política mas também no futebol. Como você viu o escândalo da FIFA, que levou, em 2015, gente graúda como o então presidente da CBF para a cadeia nos EUA?

É um assunto vasto e complexo. Nos últimos tempos grandes instituições, os sistemas de organização perderam força. Escola, governos, religião e a família perderam força. Se essas quatro referências, que para uma pessoa são guias, perdem a capacidade de controlar, organizar, a tendência é que aconteçam cada vez mais corrupção, tráfico… Qualquer coisa que a gente chame de delinquência. No futebol não é diferente. Numa organização como a FIFA, em que ela tem mais afiliados que a ONU, que faz um campeonato que vira um movimento político… Ou você tem valores e uma sustentação muito forte, ou vai acontecer o que aconteceu.

Você já disse que somente os clubes podem salvar o futebol brasileiro, e que se fosse presidente da CBF faria tudo a partir dos clubes. Presidir a CBF passa pelos seus sonhos?

Saí do estigma do bom menino há muitos anos, não sou candidato ao Prêmio Nobel da Paz, não tenho preocupação em ser politicamente correto… Então, não tenho ambição de ser presidente da CBF. Hoje, não acredito que alguém nesse esquema possa realizar nada com real possibilidade de construir. Acho impossível. O sistema hoje seria mais forte do que qualquer cargo. O que eu almejo é poder participar de uma discussão do que poderia ser. Isso já faço com vários atores do mundo do futebol.

Afinal, o coração balança pelo Flamengo ou São Paulo? 

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Desde pequeno meu pai me levava ao Maracanã para ver o jogo com o Bonsucesso. Uma coisa que se adquire por sentimento, vivendo aquele Flamengo dos anos 1970/1980 do Zico. Não sou muito de ídolos, mas o Flamengo tem coisas marcantes. Nunca pensei em jogar futebol, aconteceu de maneira casual. Acabei estreando no profissional do Flamengo. No São Paulo, ganhei em títulos, conquistas. A paixão é Flamengo, mas talvez eu tenha mais o perfil do São Paulo.

Acredita que poderíamos ter um mundo menos injusto se pessoas famosas doassem um pouco mais do seu tempo a causas sociais? Ainda está à frente da Fundação Gol de Letra?

Hoje, com a minha ex-mulher Beatriz no Rio e o Raí em São Paulo, a Fundação tem gestão própria. Não é aquela coisa minha e do Raí, que financiamos. Só que você pode abrir dez fundações, mas vai estar sempre no varejo. Vai cuidar de quantas crianças? Mil, cinco mil, dez mil? É sempre pouco. Não há a necessidade das pessoas abrirem uma fundação para pessoas em risco social. Não quero fazer aqui a Madre Teresa de Calcutá, mas a maior carência das pessoas é o amor. O que teria que mudar é nosso comportamento cotidiano, que nos leva à situação de caos. Essas pessoas se sentem fora do sistema. E sem perspectiva você não tem nada. A forma de tratamento é cruel, gera violência e esse desnível que vivemos.

 

Share: