Lenine

Lenine_contrasteLenine, cantor e compositor | por Heloisa Eterna | foto Alexandre Campbell | Março 2017

LENINE: UM MÚSICO ‘ORQUIDOIDO’, QUE SOUBE ONDE COLOCAR SUAS RAÍZES

Lenine, é fácil trabalhar com muita gente ao mesmo tempo?

Sempre acreditei que compor e tocar fosse uma ferramenta de aproximação para com o outro. Meu processo é coletivo. Mas apesar de ter uma banda fidelíssima tocando há muitos anos comigo no palco, não tenho obrigação de tê-los na hora em que estou fazendo o disco, porque é completamente diferente do processo do show. O disco tem aquela coisa de você estar dentro de um estúdio, de não ter o ser humano ali, te ouvindo, e você exposto para ele. É uma coisa mais entre quatro paredes, solitária. Aproveito este momento de criação para exercitar a experiência. Trabalhar com quem nunca trabalhei, mas que admiro. Também gosto de reafirmar os parceiros que estão comigo há vários anos. Não por acaso, a primeira música do “Carbono” tem um refrão que diz: “O que eu sou, eu sou em par. Eu não cheguei sozinho”.

Você já criou mais de 500 canções? 

Essas coisas da internet, da propagação da informação… Nunca parei para contar, nunca cheguei a este número (risos). Eu digo que deve ter 200 e tantas canções gravadas. E é muita coisa, tenho muito orgulho disso.

E de onde vem tanta inspiração? 

Tem a música que chamo de ‘psicofonada’. É como se você não fizesse, foi só um catalizador, e ela surge como se estivesse pronta, não preciso de um instrumento para tocar, já vem a melodia e a letra, tudo ao mesmo tempo. Mas isso é um caso em cem. Geralmente o processo é dolorido. É você perseguindo pelos caminhos de uma melodia as palavras ocultas naquela melodia, ou você descobrindo a melodia nas palavras. Isso não é fácil, não tem nada a ver com a música pronta. Mas a alma sabe quando você chegou numa coisa que toca o outro.

Criar já te atormentou de alguma forma? 

Quando trabalhei com o Grupo Corpo, o Rodrigo e o Paulo (os irmãos Pederneiras, criadores do grupo de dança) me pediram três coisas. Uma era: “Faça a trilha”; a segunda: “Precisamos de 40 minutos de música inédita”; e a terceira: “Mostra na hora que achar que deve, porque só vamos trabalhar depois da trilha pronta”. Nunca tinha entrado em um estúdio com uma liberdade tão opressora (risos). De uma hora para outra, eu, que sempre tive o processo de burilar, de sofrer com a dor da composição até chegar ao momento sublime da canção, me vi sem ter a mínima direção nem noção de onde chegaria. Estávamos falando de ritmo, de melodia, não havia materialidade nenhuma. No entanto, eu tinha a certeza que precisava dar estímulos e subterfúgios para aqueles corpos se expressarem. Depois disso, me impus a fazer os discos sob a égide do aqui e agora. Nunca mais voltei ao baú das canções. Então, esta dor da criação eu fui amenizando, exorcizando, jogando foco no ato de fazer. Isso tem sido a coisa mais saborosa desse processo todo.

“Não faça isso. Morra de fome agora, mas não faça isso. Um dia você vai me agradecer.”

(Conselho de Maurício Tapajós a Lenine)

Quando você percebe que está pleno e toca a alma das pessoas nos seus shows?  

Não é com o olhar, porque sou míope, então em cima do palco é só um borrão (risos).  A gente sente com o corpo, com todos os sentidos, mas não necessariamente com um só deles. É um tipo de ritualização, que termina quase sendo uma igreja naquele momento sublime, onde não precisa da palavra, está todo mundo ali atento e dividindo uma história. Mas isso não acontece sempre. Quando dá um problema técnico, e muitas vezes acontece, é preciso sair daquele momento e pensar em resolver, não posso deixar que o público perceba. Você não pode parar de cantar.

Você fica estressado nessas situações? 

Eu minto bem, todo mundo acha que eu tenho a maior paciência do mundo (risos). Mas a paciência é uma procura. Você não fica num estado de paciência, você busca isso a vida toda. É uma busca eterna.

Olhando para trás, o que considera que foi sua virada na carreira? 

Acho que não tive muito isso, não. Penso que foi sedimentar. Houve quase dez anos entre os discos “Baque Solto”, que ninguém tomou conhecimento, e  “Olho de Peixe”, que todo mundo tomou. Parece ter havido um hiato, mas não houve. Estava lá compondo. Só consegui fazer porque tive que ser o meu produtor, já que a indústria não acreditava no meu trabalho a ponto de bancá-lo. E tudo que eu queria era que um selo lançasse meus discos. Então, passei a produzir meus trabalhos. E não era fácil, durante muitos anos foi um tipo de arrolamento de dívidas. Pegava tudo que eu ganhava e investia no disco. E aquilo levava dois anos para eu reaver. Aí eu fazia um outro disco.

E o que foi determinante para que você chegasse onde está hoje? 

Primeiro, uma dose cavalar de “cabeça-durice”. Todo mundo dizendo: “Não, não dá certo…” E eu pensava: não é possível que eu esteja tão errado. E outra: minha cara-metade, que eu descobri muito cedo, Anninha (Anna Barrozo, mulher de Lenine). Que continua sendo parceira de vida, editora e minha empresária. Tive ainda sorte de ter amigos como Maurício Tapajós. Naquela época, você leiloava suas canções. Se alguém gravava uma música sua, as editoras chegavam para você e ofereciam tanto. Isso era comum. E Maurício disse: “Não faça isso. Morra de fome agora, mas não faça isso. Um dia você vai me agradecer”.

E o resultado?

O melhor da festa é que isso me deu uma liberdade impensável naquele momento. Hoje quase a totalidade da minha obra pertence a mim.

“Tudo que me incomoda se torna invisível. […] Uma coisa que me incomoda mais é a dissimulação.”

Tem uma letra que diz: “Quando eu olhar pro lado, eu quero estar cercado só de quem me interessa”. Isso é um privilégio. Você consegue?

Consigo. Desenvolvi um projeto chamado vista grossa. Tudo que me incomoda se torna invisível. No início é meio difícil, mas você passa a economizar muito sua energia no que realmente interessa.

O que te incomoda mais no ser humano?

Pô, cara, muita coisa me incomoda no ser humano (risos). Mas muita coisa também me comove. Eu adoro esse dualismo. Uma coisa que talvez me incomode mais é a dissimulação. Gosto da coisa direta, não gosto do arrodeio. E o ser humano é dissimulação só.

Você tem alguma crença religiosa? 

Tenho uma pan religião, uma coisa que é o somatório de todas as experiências. Não falo de Deus, assim como meu pai nunca se referiu a Deus. Mas ele sempre falava no divino. Herdei isso, só quero perceber o divino das coisas. Foi uma grande aula naturalista. Cultivo orquídeas há 18 anos, e essa paixão cada vez aumenta. As orquídeas foram uma grande alavanca de contemplação. Consigo através das orquídeas desligar o diálogo interno, ficar calado por quatro, cinco, seis horas. Isso é muito difícil para quem vive nesse século. Você toma um Rivotril e apaga. Nunca imaginei que teria uma paixão assim depois de velho, estou com 58. Todos que têm mais de 20 anos de música reclamam de viagem: hotel, check in, check out…  As orquídeas me deram um prazer renovado. Antes de fazer qualquer show, pesquiso sobre o endemismo do lugar. Descubro “orquidoidos” como eu. Viajar virou um outro prazer. Faço as turnês em função das plantas que quero ver (risos).

“Vou ter raiva de deixar de viver.”

A morte é algo em que você pensa? 

Tento chegar próximo, novamente, da ideia que meu pai tinha. Um pouquinho antes de morrer, a gente tinha abertura para tudo, falávamos sobre tudo, e eu brincava muito com ele com essa coisa dele dizer que era ateu. Porque ele não era ateu, e sim agnóstico. Mas se dizia ateu. Toda vez chegava perto dele, ele envelhecendo, e perguntava: “E aí, não está com medo de morrer, não?” E ele dizia: “Medo de morrer? Eu tenho é raiva de deixar de viver”. Então acho que trago comigo um pouco isso. Eu vou sentir falta da celebração do dia. Quando vou dormir, vou sabendo que no primeiro raio de sol vou acordar. Porque acordo realmente quando amanhece. Já digo: olha o dia, que maravilha. Mas vou ter raiva de deixar de viver (risos).

Seu pai fez uma homenagem ao Lênin ao te dar o nome…  

É um carma, ? (risos). Quando fui convidado para participar de um festival de rock na Rússia, levei meu pai, que nunca tinha saído do Brasil. Foi muito bacana perceber isso: primeiro o que levou ele, um humanista, a botar o nome de Lenine no filho, em homenagem ao Vladimir Ilyich Ulyanov (fundador da União Soviética), acreditando que aquilo poderia ser uma grande revolução planetária. Segundo, muitos anos depois, esse filho se transformar num cantor de pop/rock e levar ele para a Praça Vermelha, e lá descobrir que tinha uma placa do Mc Donalds junto da fila para ver o corpo embalsamado do Lênin. Você entende a loucura de tudo? E meu pai foi muito isso. Somos um poço de dúvidas, de interrogações.

“Cada vez que acho que estamos mais próximos da consciência planetária, vejo que levamos um outro soco no estômago.”

Tem alguma coisa que você ainda não fez? 

Muita coisa. Tantas que acho que não tenho nem idade que me resta para poder trilhar tudo que me estimula. Queria voltar a estudar.  A primeira coisa que fiz para poder queimar etapa na paixão pela botânica foi bibliografia. Em todo lugar que vou, quando tem livro com nome de planta, eu compro. Aí você descobre como faz uma nomenclatura, geralmente é no latim…  Se eu estiver na Mongólia com um cara apaixonado por planta, a gente vai se entender. Adquiri uma biblioteca invejável, com livros com descrição de plantas. Queria dividir isso, porque fica só eu,? Quem está junto de mim não aguenta mais: “Ah, orquídea de novo não!” (risos).

Se não tivesse talento musical, o que você estaria fazendo? 

Acho que estaria envolvido com alguma coisa de botânica. Fiz Engenharia Química já pensando nisso… Sou naturalista, acho que iria por este caminho. Poderia estar trabalhando com a recuperação do caranguejo-uçá, na Baía da Guanabara, ou poderia estar no Tamar, em Fernando de Noronha, trabalhando com as tartaruguinhas… Ou com o Projeto da Jamanta, no litoral de São Paulo. Tanta coisa, mas tudo ligado com a natureza de alguma maneira.

Acha que a consciência ecológica das pessoas evoluiu? 

De uma maneira geral tem melhorado. Você precisa de educação para dar um salto qualitativo na cidadania. E isso dura 20, 30 anos. Cada vez que acho que estamos mais próximos da consciência planetária, vejo que levamos um outro soco no estômago. A minha geração fica muito vendida, muito desesperançosa.

“É preciso calar o euzinho que fica dentro da gente falando o tempo todo.”

Temos cada vez mais urgência num tempo cada vez menor. Você tem essa sensação? 

Tenho. A conta não fecha. Você tem toda a informação do mundo, mas continua com 24 horas no dia. Por isso aquele meu projeto vista grossa… Estou me libertando também da internet. Se eu não tiver um objetivo, não vou navegar. Celular, tenho mas uso desligado. Tenho um celular para ser uma ferramenta em meu benefício.  Não tenho celular para todo mundo saber onde estou e a que horas estou. Tenho para toda vez que quiser ligar para minha mulher, filhos. Fui eliminando essa hiperinformação que se tem aí. E é uma informação wikipédica, superficial. Ninguém aprofunda mais nada. Pega uma leitura de pé de página e acredita naquilo ali, vira uma grande verdade. A rede é muito recente e é uma incógnita muito grande na minha cabeça, uma grande interrogação.

É possível ‘atrasar o relógio e acalmar a pressa’?

É, sim. Eu consigo. Não sei se o tempo para para os outros, mas para mim para. E acho que é fundamental esta parada. É preciso calar o euzinho que fica dentro da gente falando o tempo todo. É muito difícil. Os orientais têm mil maneiras de deligar isso, mas nós ocidentais… A gente não se dá a esse luxo. Acho que a gente tem que fazer um exercício diário para crescer no prazer, celebrar e reverberar o prazer. Mudar essa máxima de que o homem aprende na dor.

Você é um otimista? 

Sou. Acho que sou. Sou um realista, mas tenho essa coisa com o ser humano. Por mais que a vida tenha me dado esses exemplos todos, por mais que a gente esteja em um momento de muito conflito, de muito desespero, acredito no homem. Acredito realmente no homem. Tenho essa herança da formação naturalista de meu pai. Até que se prove o contrário, a minha crença é total. Ainda. Ainda (risos).

 

 

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