José Joffily

PBvIMG_0979José Joffily, cineasta | por Heloisa Eterna | foto Alexandre Campbell | Outubro 2017

JOSÉ JOFFILY: CINEASTA FALA DA IMPORTÂNCIA DA AMBIGUIDADE E QUE GOSTA DE TRABALHAR COM OS MESMOS ATORES

Joffily, além de ser diretor, fotógrafo, roteirista e produtor de cinema e TV, você também atuou como ator (filmes “Bete Balanço” e “Bela e Galhofeira” e na novela “Kananga do Japão”). Você é um bom ator?

Foram participações afetivas, que são sempre mais descontraídas. Uma coisa é você viver de ser ator, outra é ter uma experiência de ator. É diferente. Me lembro que em uma ocasião mandei um livro de poesia, que escrevi uns 40 anos atrás, para o Carlos Drummond de Andrade. Sempre muito gentil, me retribuiu com um cartão dizendo: “Obrigado pela remessa do belo exemplar, que contém a expressiva e lacônica experiência poética de influência muda”. Fiquei matutando sobre essa frase. Com o tempo aprendi como ela encerrava uma sabedoria. Eu não era um poeta. Tinha tido uma experiência poética. Quem é que não tem uma experiência poética aos vinte anos, não é?

O que é um bom ator?

Sempre espero que o ator, depois de ler o roteiro, me diga o que ele acha do personagem. Porque se você sair dizendo o que você acha, acaba inibindo o ator e dificilmente terá o retorno do que ele pensa a respeito. Então, o silêncio sempre contribui para você ser um bom diretor. O ator vai interpretar, mas antes de tudo ele é uma pessoa que sente as coisas de uma forma diferente do outro. O bom ator é aquele que consegue singularizar aquele personagem, interpretar de uma forma surpreendente. Quando ele faz isso, ele agrada muito ao diretor. É um prazer danado. O que o diretor mais gosta é desse retorno que ele tem do ator.

E quando você reconhece que aquele ator foi a escolha certa?

Quando estou inseguro com relação a um ator, a leitura prévia, a leitura de mesa, sempre me dá mais segurança porque você vê que aquelas palavras, às vezes sem sentido, ganham um calor e uma força que não tinham quando estavam ali na letra fria do papel. Quando o ator interpreta, aquilo tem outro poder, outro sabor. O diretor vai ganhando confiança. Ou não, o contrário disso. Ele esfria, se surpreende com o bidimensionamento ou unidimensionamento do personagem.  Você pode atribuir isso ao que está escrito ou ao ator, por falta de entendimento dele. O bom ator você vê de cara pela contribuição que ele traz.

“Gosto de trabalhar com os mesmos atores, com a mesma equipe.”

Além de ter dividido com você a direção de “Mão na Luva”, o ator Roberto Bomtempo atuou em vários filmes seus. Foi coincidência ou você gosta de trabalhar com os mesmos atores?

Gosto de trabalhar com os mesmos atores, com a mesma equipe. O cinema é a minha vida, ocupa 80% dela. É o momento que posso encontrar os amigos. Desde o fotógrafo, o Nonato Estrela, com quem fiz várias parcerias, até o Bomtempo e outros atores que foram se agregando, como a Patrícia Pillar, o Antônio Fagundes. Tantos atores. Se pudesse trabalharia com todos de novo. Sempre sonho em trabalhar com eles novamente, nem sempre dá por questão de agenda. Quero repetir a experiência que a gente teve, amadurecer essa experiência e conviver no set nos intervalos, uma coisa que me agrada muito. Do contrário você acaba não revendo seus amigos, porque o trabalho vai te absorvendo de tal forma… Os intervalos são um bom momento para você conversar e namorar os amigos.

Você já disse que faz um próximo filme para se livrar das questões que não estavam bem resolvidas no filme anterior. O que você mudaria hoje em “Quem matou Pixote” (1996), que foi premiadíssimo com vários Kikito?

Não gosto de rever os filmes. Mas algumas mudanças se cristalizam na sua cabeça ao longo do tempo. Mudaria algumas coisas no roteiro, na música. Eu poderia refazer o mesmo filme a vida inteira, assim como o Orson Wells falou que montaria um mesmo filme a vida inteira. Mas em vez de você refilmar, é mais interessante absorver aquelas questões e investir no filme seguinte, que é uma forma de refazer o que já tinha feito.

“O filme médio, sem o reconhecimento internacional e sem a grana local, está fadado ao naufrágio.”

O mercado está monotemático?

Está monotemático porque se impôs a lei do retorno. A atividade audiovisual passou a ter, quero dizer, sempre teve, a obrigação de se remunerar, e em função disso a temática da produção foi limitada. Mas acho que existe espaço para os dois extremos. Tem espaço para o filme de mercado, a comédia, com aqueles seis atores que a gente conhece… Aí você já limitou, não é? Porque são esses os atores para o filme que teria resultado, segundo os distribuidores, que são os donos do mercado.  Por outro lado, no extremo oposto, tem espaço para o filme de arte, que tem uma contribuição muito forte, artística mesmo, pela sua singularidade. Acho que o filme médio é que sofreu muito. Aquele que nem é um blockbuster nem um filme autoral, não é uma comédia nem um filme confessional.

 O que faz que um filme médio tenha menos espaço?

Primeiro, o poder da grana. Porque um filme só existe a partir do momento em que as pessoas tomam conhecimento. Se não, ele não existe. Às vezes, um filme entra em cartaz num dia e já não deu certo. Porque as pessoas não tomaram conhecimento de que ele existia. A comercialização e o volume de dinheiro aportado são muito importantes. Mesmo uma comédia com aqueles seis atores não teria bom resultado. O investimento que você faz na comercialização é definitivo para o sucesso do filme. A não ser que o filme venha referendado por um festival europeu. Mesmo assim pelos três grandes: Cannes, Berlim ou Veneza. Não adianta vir de San Sebastian, de festivais de segunda linha. Ou seja, o filme médio, sem o reconhecimento internacional e sem a grana local, está fadado ao naufrágio.

O artista sempre espera contar com aprovação da plateia. Isso passa pela sua cabeça antes de se decidir por um projeto?

O primeiro filtro sempre sou eu mesmo, porque se não me interessar como é que vai interessar ao outro? Como qualquer trabalho, a produção de cinema conhece dois momentos. O quente e o frio. O quente é o entusiasmo no seu coração com uma história. E o momento frio é quando você se pergunta se aquela história vai trazer o vil metal. Tem alguém interessado nisso? Uns produtores mais sarcásticos, mais irônicos, dizem que esse é um projeto sim ou um projeto não. Yes or no.

A ambiguidade é um fator importante nos eus filmes?

Acho que a ambiguidade é você conviver com o incerto, com a incerteza. Da mesma forma que na vida você não deve saber tudo, nem tudo você deve entender. E talvez alguma coisa que você não entende hoje, entenda amanhã. Acho que nos filmes também. Não é preciso as pessoas entenderem tudo. Eu tinha uma certa compulsão em explicar tudo, dizer tudo. Na realidade isso refletia um pouco uma incredulidade minha mesmo com a imagem. Não é preciso que você entenda… Até porque uma realidade só não existe. É uma onipotência nossa achar que existe uma realidade apenas, que você está vendo o certo. Cada um verá de uma maneira. Então, fazer um filme ambíguo é você admitir que as pessoas vão completar o teu filme de forma diferente. Vão sentir aquele filme de maneira diferente também. Isso é bom. Aceitar como uma contribuição não como uma subtração. É uma soma. As pessoas entendem de uma maneira diferente. E também te relaxa um pouco com relação ao entendimento das coisas. Mas isso é uma reflexão. Também não é uma verdade (risos). É um pensamento que tem me acudido algumas vezes. Acho que talvez o filme em que eu tenha exercido mais isso tenha sido o “Caminho de volta”.

“Existe um muro […] mais concreto do que esse muro que caiu. Que é o muro da miséria e do bem-estar.”

É recorrente nos seus filmes a temática do imigrante, presente em “Olhos azuis” e mais recentemente no documentário “Caminho de volta”, em que a sua sogra é um dos personagens.  De que forma isso te toca?

Não sei. Mas olhando para trás, de fato existe essa coincidência temática. Tem umas coisas racionais, que eu sei. Vejo que os seres humanos têm fronteiras. Daqui você não passa, para cá você não vem, para lá você está proibido, ali você pode ir. Mas são seres humanos. O dinheiro, não. Esse pode ir para qualquer lugar. Ele não está interditado, tem livre trânsito, não precisa de passaporte. O dinheiro vai, o dinheiro vem. Mas o ser humano, não. Apesar dessa modernidade que se propõe a ser sem fronteiras, como a Europa se propõe a ser, como a América Latina se propôs a ser, acho que ela é uma ficção. Nem é questão de achar, você olha para o mundo e vê como está. Existem fronteiras cada vez mais rígidas. Fisicamente, o muro caiu. Mas existe um muro muito mais forte, mais concreto do que esse muro que caiu. Que é o muro da miséria e do bem-estar. A Europa tem conquistas. Conquistou a seguridade social, benefícios que demoraram anos para serem conquistados. E o europeu pensa: “Eu vou dividir isso?” Só que tem um mundo faminto em volta. Com o qual a Europa tem contas a prestar.

Em “Caminho de volta”, você utilizou recursos do cinema direto, onde pela mínima interferência do diretor e sua equipe muitas vezes reina o silêncio até que uma cena realmente aconteça. É difícil suportar o silêncio? 

O silêncio é o cão. Ele sempre provoca o desejo de você preenchê-lo com alguma coisa. Eu sou bastante silencioso. E a ansiedade é inimiga do cinema direto. É preciso saber dar tempo ao tempo, escutar mais do que falar, ficar mais parado do que se movimentar. Não quer dizer que você vai acertar. Mas é exigido de você esse comportamento. No caso de “Caminho de volta”, cuja direção é minha e do Pedro Rossi e a produção da Isabel Joffily, acho que a parceria com os dois, que são bem mais jovens do que eu, foi muito importante. Porque eles não têm, ou se têm não é com tanta força quanto eu, ansiedade. Talvez pela idade. Quando você tem 70 anos como eu, a ansiedade é mais intensa, até porque o seu tempo para frente é infinitamente menor

“Sempre partilho do otimismo de que o mundo está melhorando.”

Saber que o tempo futuro está curto te angustia?

Tudo me angustia. E na realidade, tudo não me angustia também. Com a idade essa ansiedade ficou exacerbada, por conta dessa diferença do tempo para trás e do tempo para a frente. Esse desequilíbrio entre esses dois tempos intensificou a minha ansiedade.

Além da sua mulher, você tem duas filhas e duas netas. É um homem cercado por mulheres. O que mais te agrada no universo feminino?

Quando a Isabel nasceu, era louco para ter um menino. Na hora que vi que era uma menina, fiquei tão eufórico, feliz com aquele momento, que houve uma revolução. E eu adoro. As mulheres são muito poderosas. São mais calmas, têm mais força. Às vezes menos iniciativas, mas são mais continuativas que os homens. Regulares nos seus desejos, com mais certezas, embora sejam também tumultuadas como os homens. Gosto de estar cercado dessas mulheres de várias idades, de dois a 70 anos. Mas também não sou um cara politicamente correto. Devo ser um machista, uma pessoa de outra geração. Os meninos de hoje pensam de maneira diferente, são melhores certamente. Sempre partilho do otimismo de que o mundo está melhorando. Isso se deve às conquistas das mulheres. A ocupação do espaço, ação e maior reflexão…  As mulheres tiveram importância gigantesca nessa oxigenação do pensamento, na liberação de algumas amarras preconceituosas. Tiveram importância e terão. Pior para elas, porque vão ficar cada vez mais responsáveis por essa conquista. Aí você relaxa e pensa: “Elas cuidam, elas vão resolver”(risos).

Você sofreu uma parada cardíaca em 2015. Mudou alguma coisa no seu jeito de tocar a vida?

Sete meses depois tive uma depressão horrorosa. Tenho a impressão de que não conhecia isso, durou uns quatro meses. Parece que não passa. Você fica chafurdando nela para sempre. Tomei uns medicamentos, mas que tinham efeitos colaterais péssimos. Um amigo, que leu “Guerra e Paz”, do Tólstoi, disse que tinha uma frase que dizia: “Em caso de depressão, marcha forçada”. A partir desse dia comecei a caminhar muito. Isso trouxe benefício físico e psicológico, porque era uma forma de pensar e planejar em movimento. No resto, talvez tenha me convencido de que, está certo, a gente partirá, é inevitável. Porque até um certo momento você acredita que é imortal, que morte é coisa de terceiros. Os outros morrem. Com o infarte, entendi que era um sinal, dizendo: “Olha você também está incluído nesse hall. Não adianta achar que você está fora disso”(risos).

 

 

Share: