Valter Hugo Mãe

Entrevista com o escritor português Valter Hugo MãeValter Hugo Mãe, escritor português | por Heloisa Eterna | foto Hiroki Kobayashi | Agosto 2017

VHM: DONO DE UMA LITERATURA FANTÁSTICA, AQUI EM DUPLO SENTIDO, ESCRITOR DIZ QUE ESTÁ CADA VEZ MAIS SÓ E ATRAPALHADO

valter hugo mãe (o escritor opta por ter o nome grafado em minúsculas), você já disse que a literatura te possibilita encontrar aquilo que nunca encontrou. O que isso significa exatamente?

Escrevo por tudo quanto me falta e apenas pressinto. Escrevo pela pura revelação. A arte não serve para se submeter ao mundo nem à realidade. Ela é um ponto de fuga para uma dimensão maior. Transforma de verdade o comezinho na flagração do milagre. Escrevo porque quero muito mais do que a contingência e muito mais do que a natureza. Quero a heroicidade interior. A superação absoluta de cada dia e do que somos. Para sermos outros e outros e infinitos enquanto durar nossa vida.

Em “Homens imprudentemente poéticos” há uma citação onde é dito que estar sozinho é uma condição de ser o que se é. Você consegue lidar bem com a solidão?

Não. Tenho graves problemas com a solidão. E faço amigos absurdos que não merecem meu tempo porque quero nunca estar só. E não estou melhorando. Ao contrário. Tenho menos amigos, mais só, muito mais atrapalhado.

“Considero obscena a morte em todos os seus sentidos.”

Na sua literatura, a presença ou discussão sobre a morte é recorrente. A questão da sua finitude te angustia?

Angustia-me o fim dos outros. De quem amo. Considero obscena a morte em todos os seus sentidos. Ela é um desrespeito pelo patrimônio que cada um de nós carrega. Afetivo. Somos afetos jogados ao lixo. A natureza inventou isto muito mal. O seu esplendor é também cruel e imbecil. Algumas pessoas deviam ser mantidas pela inteligência endêmica da natureza. Deixá-las morrer é muito burro.

Podemos estar prontos para a morte?

Podemos tentar. Só o saberemos no instante em que já não houver nada a fazer, e talvez não houver como falar. Será um segredo só nosso que, de todo o jeito, não nos salvará.

É possível nos “amigarmos” do próprio medo, como lemos em um de seus livros, e saírmos fortalecidos?

Sim. Acredito muito nisso. Com a maturidade, podemos reconhecer nossos medos e criar um pacto. Não vamos nunca deixar de os ter como guardados num lugar do peito onde procuramos não mexer. Mas é possível viver dividindo o peito. Usando uma intensificação propositada de um lado do coração. Como se escolhessemos o amor ao invés do ódio. Isso, eu considero da pura qualidade de cada um. Essa escolha. Todos somos convidados a sucumbir aos piores sentimentos. Seguirmos sendo boa gente, propensos a gostar dos outros mais do que a afastá-los, é uma decisão que nos qualifica. O medo tem que ver com isso. Ele existe, não pode, contudo, ordenar. Serve de limite extremo, por vezes, serve de aviso, é uma referência de nossa prudência e até de nossa vontade, mas não deve ser priorizado a cada instante. Temos de pegar o elevador e saber que nossa vertigem vai odiar. Mas pegar o elevador como se nossa vertigem fosse uma coisa amiga, meio quieta a um canto como nosso cão que não gosta de visitas. A gente faz uma carícia e manda que fique quieta.

“São políticos racistas, homofóbicos, sexistas, xenófobos.”

(Sobre Trump, Temer e Marine Le Pen)

O mundo, segundo uma afirmação sua, rejeitou o politicamente correto, porque é cosmético, sem substância, conteúdo. Olhando para o mundo, sob seu ponto de vista, o que se enquadra nesta afirmação?

Infelizmente, a rejeição do politicamente correto não tem sido apanágio das mentes mais iluminadas. Muito ao contrário. São os grotescos políticos quem mais se manifestam à revelia de uma cosmética política que nos mantinha dominados por uma mentira contínua. Hoje, parece que se cria uma maior transparência. No entanto, o que é celebrado na transparência é um retrocesso nos valores humanos violento. Gente como Trump, ou Temer, ou Le Pen, é seguida por muitos como exemplos de honestidade e força. Como se falassem o que todas as pessoas falam mas não têm a coragem de assumir. São políticos racistas, homofóbicos, sexistas, xenófobos. Os direitos humanos, no entanto, não podem ser dispostos a nenhum tipo de “achação”. Não há opinião para direito fundamental. Direito fundamental tem de ser reconhecido. Só isso. Não se deve nem referendar. O que se prende com a dignidade elementar de cada um pertence a cada um por definição, não compete a nenhum vizinho concordar ou discordar. O politicamente correto criava uma aura de estar tudo bem num lugar de gente podre. Infelizmente, a queda do politicamente correto acontece pela assunção de que todas as pessoas são podres. O que não pode ter o meu acordo. Estou à espera de gente de boa fé que seja transparente e governe o mundo.

“Quem não tem ideia do mundo em que vive não é seu cidadão, é apenas consumidor.”

Está havendo uma guinada à direita, haja vista o crescimento de partidos conservadores em muitos países da Europa, mesmo no Brasil, onde a esquerda tem enfrentado forte oposição. Podemos ter esperança de dias melhores, ou você é mais pessimista?

Diria apenas que esperança não pode ter esquerda nem direita. Nem dignidade. Nem direito. Pessoas são de todo o modo. A política precisa ser de todas as pessoas. As elites precisam se conformar com a existência de mais alguém e partilhar o mundo. Não é possível aceitar políticas focadas no favorecimento do grande capital. Só entendo que os países se organizem para cuidar de cada cidadão. Ninguém mais do que ninguém.

Você disse que urgimos na urgência do protesto. Em que situações essa afirmação se aplicaria em Portugal e também no Brasil? Ou no mundo, se preferir.

É fundamental que tenhamos opinião. Quem não tem ideia do mundo em que vive não é seu cidadão, é apenas consumidor. Ter uma convicção é a assunção da cidadania. Participar, cumprir sua própria convicção. Agir com um projeto de sociedade. Se não houver essa visão, apenas gastamos o tempo como quem consome e se consome, mas não pertence aos outros.

Sobre sua escrita, já afirmou que não quer que seus livros tenham relação clara com quem você é. Isso é possível?

Não. É impossível. Mas eu não quero. Isso é verdade.

“Ela quer sempre que todos se amem e acabem casando e tendo filhos. […] Meus livros seriam um desastre.”

(Sobre se a mãe dá palpites naquilo que escreve)

A propósito, apesar de discorrer sobre temas mais densos, valter hugo mãe pessoalmente tem um humor cativante. Esse lado mais extrovertido não reflete a complexidade mais taciturna de alguns de seus personagens. Ter humor na vida pessoal é uma forma de dissociar valter hugo mãe das histórias que narra?

Ser humorado é um modo de validar a vida. Não posso sucumbir às minhas tristezas, ou às tristezas do mundo. Uso, sim, de saber rir. Desde logo, de mim. Obviamente, não sou mais do que Sócrates. Morrerei profundamente ignorante, irremediavelmente ignorante. A única coisa garantida será a alegria que senti. A que valerá a pena celebrar, quero dizer.

A força da presença de sua mãe está até no sobrenome que escolheu. Você já disse que ela é muito sozinha, e que por esta razão está sempre com ela até nas lojas de departamento, quando aproveita para escrever capítulos inteiros de um livro no celular. Ela dá palpites nas histórias que cria?

Não. Ela quer sempre que todos se amem e acabem casando e tendo filhos. Ela gosta de tudo muito rosa. Não há como fazer o que pede. Meus livros seriam um desastre. Ela inventa muitas histórias. É até metida. Mas não creio que seria uma boa escritora. Prefiro que fique comprando suas roupas coloridas, e deixe que eu lhe conte meus livros sem que peça demasiado pelo destino das personagens.

“Não sou feliz. Mas não sou ingrato.”

Invariavelmente seus personagens têm uma pitada de surrealismo. Você já disse que sonha muito. Há sinergia entre as duas coisas? Seus sonhos se repetem? Como eles influenciam sua obra?

Sonho com soluções. Tantas vezes encontro. Acordo sabendo o que nunca soube. E os livros mudam depois das noites. No tempo mais frenético da escrita acordo constantemente misturado com a fantasia, porque um sonho me diz algo fundamental para meu texto. Personagens morrem ou nascem por causa disso. Descubro títulos, entendo os finais. A cabeça fica muito livre, fará conexões menos óbvias para chegar, ainda assim, ao melhor resultado. É muito gratificante.

Em uma palestra, você disse que sempre achou que as pessoas bonitas tinham a obrigação de serem felizes. Muitos dos seus fãs o consideram um homem bonito. Você é feliz?

Não. Não sou bonito. Não sou feliz. Mas não sou ingrato. Preciso agradecer por minha vida. Muito do que ela me dá é um tesouro. Meus leitores são um bocado gigante disso que reluz na vida. Obrigado por me lerem e, quem sabe, por acharem bonito este corpo torto.

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