Conceição Evaristo

_IKA3802_1Conceição Evaristo, escritora | por Heloisa Eterna | foto Isabela Kassow | Setembro 2017

CONCEIÇÃO EVARISTO: ESCRITORA DIZ QUE BRASILEIRO É PRECONCEITUOSO E QUE SUPREMACIA BRANCA É CONTRADITÓRIA

Conceição Evaristo, foram 20 anos até publicar seu primeiro livro, o romance “Ponciá Vicêncio”, que narra a infância de uma menina pobre, descendente de escravos. Tanto ele, quanto o segundo livro, “Becos de Memória” (Editora Pallas), foram traduzidos para o francês. Na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano a senhora foi celebrada pelos ouvintes de sua mesa e por onde passava. Também já foi homenageada pela Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro com a medalha Pedro Ernesto, dedicada a  quem mais se destaca na sociedade brasileira ou internacional. A senhora está feliz com tudo isso? 

Sem sombra de dúvidas. Me sinto presenteada nos meus 70 anos, e num momento que não esperava que tudo tomasse esse rumo. É um momento de celebração. Não só para mim, mas para minha família e as mulheres negras que se sentem também contempladas com meu sucesso, com meu texto, minha trajetória. Na verdade, não caminho sozinha.

“Não quero que a exceção fortaleça o discurso da meritocracia.”

Mulheres negras que se espelham na senhora, também esperam por um reconhecimento. Não é  fácil na sociedade em que vivemos chegar onde chegou.

Não. Embora escrevesse desde sempre, minha primeira publicação foi aos 44 anos com o grupo Quilomboje, de escritores e escritoras afro-brasileiros que bancam suas publicações. Se tivesse nascido em outra condição social, se fosse mulher branca passaria por todas essas dificuldades? Tenho dito que sou uma história de exceção. Essas histórias de exceção têm que ser questionadas. Uma vez, no salão do livro de Paris, eu disse que minha história era perigosa, porque ela pode servir de fundamento para a questão da meritocracia. De acharmos que: se trabalhar muito, se houver esforço, você consegue. A meritocracia incentiva uma ascensão pessoal. E a minha questão é voltada para a reflexão dentro do coletivo, como mulher negra, ligada a movimentos sociais.

A senhora acredita que histórias de exceção confirmam a regra?

Sim. Mas que regras são essas que você vê uma mulher negra na literatura, um juiz negro, talvez um empresário negro, um casal negro fazendo sucesso na televisão? Tem alguma coisa muito cruel na sociedade brasileira que provoca essas exceções. Enquanto uma maioria branca detém mídia, capital e grandes postos nas grandes empresas. Quais são, por exemplo, as altas patentes negras no Exército? Essas exceções têm que ser celebradas, e eu seria uma pessoa de uma falsa modéstia se não celebrasse, não me considerasse contemplada. Mas não quero que a exceção fortaleça o discurso da meritocracia.

O rapper Emicida diz que só pelo fato dele existir muitas perguntas precisam ser feitas? O que a senhora acha dessa afirmação?

Tem uma certa coincidência com o que estou falando agora. E uma dessas perguntas seria: que regras são essas que fazem com que os negros que conseguem “chegar lá” se transformem em frutas raras? Enquanto não for normal, não for comum os negros terem as suas conquistas, tem alguma coisa aí que a gente precisa pensar mais profundamente. Não pensar só no sucesso dessas pessoas negras, mas pensar qual a razão de as outras não alcançarem determinados patamares.

“O negro fica visível em situações que o imaginário brasileiro não permite que ele esteja.”

A senhora acha que a cor nos deixa invisíveis?

Em determinadas situações. No caso do negro, por exemplo, se você chega numa favela ou numa penitenciária e vê um grande número de negros, já está naturalizado. Quando  essas pessoas negras se encontram num habitat fora daquele que a sociedade considera normal para elas, aí causa espanto. Não são mais invisíveis. Elas são vistas, às vezes, por aqueles que têm uma atitude agressiva. Não sei se você se lembra quando o Chico Buarque de Hollanda ficou incomodado quando o neto dele (filho do músico Carlinhos Brown) sofria racismo. Ou seja, o negro fica visível em situações em que o imaginário brasileiro não permite que ele esteja.

Já passou por isso?

Passo muito por essa situação.  Acontece quando viajo, nos aeroportos, principalmente quando vou num horário de grande fluxo de executivos, homens. É muito comum me olharem de uma forma como se perguntassem: “O que você está fazendo aqui?”.

E o que a senhora sente quando é confrontada com situações como essas?

Certa vez, no avião, me sentei entre dois homens brancos. Um deles passou a me empurrar do braço da poltrona. Me disse: “Já estou aqui no canto. A senhora quer que eu pule a janela?”. Meu primeiro sentimento foi de calar. Como é que eu ía enfrentar aquele senhor, que estava disputando o espaço comigo? Respondi dizendo que ele devia ser uma pessoa muito educada e que permitiria que eu colocasse o braço ali. No resto da viagem fiquei muito incomodada, pensando o que teria levado aquele senhor a me agredir. Se fosse uma mulher branca, que o fizesse se recordar de sua, ele disputaria o braço da poltrona? Alguém me disse que ele só era mal educado. Não, na verdade naquele momento todo o racismo dele veio à tona. São vários os sentimentos nessas horas, um deles o de dor. Já entrei em restaurantes acompanhada por amigas brancas, e na hora de pagar a conta passam para uma delas, porque pressupõe-se que elas é que vão pagar.

Doutora em Literatura Comparada pela UFF (Universidade Federal Fluminense), a senhora nasceu em uma família de mulheres negras cozinheiras, faxineiras e empregadas domésticas. Como escritora, a senhora faz reflexões sobre raça e gênero. Diante do que comentou, acha que em geral o brasileiro é preconceituoso?

É. Talvez a sociedade brasileira esteja menos cínica. Hoje, brancos e negros, também não são todos, têm coragem de botar o dedo na ferida. O Brasil sempre quis dar exemplo para os Estados Unidos e para a África do Sul de que não é racista. Mas o brasileiro é racista, é preconceituoso em vários sentidos. Mas a tendência hoje é de reconhecer, mas não sei se é de sanar e deixar de ser. E o movimento negro tem uma importância muito grande. Desde os anos 1980 a gente tem um discurso muito veemente no sentido de desconstruir a falsidade do mito da democracia racial brasileira.

“Toda mudança parte de quem reivindica.”

As mulheres brancas lutaram por autonomia contra o sistema patriarcal branco. No Brasil, mulheres brancas mantêm até hoje esse sistema nas relações de patroa e empregada. A senhora acredita que um dia isso possa mudar?

Acredito, porque acho que tenho que ter esperança. Conhecendo um pouco das lutas sociais, como militante, se eu não acreditar é jogar toda a minha crença fora. Não sei se está perto de acontecer, mas acho que algumas mudanças a gente já percebe. Toda mudança parte de quem reivindica. Quem tem o status quo garantido não vai abrir mão dos seus privilégios, não vai mudar o comportamento. Quando você pensa no próprio movimento feminista, se nós mulheres não ficarmos denunciando e enfrentando o machismo, o homem na comunidade dele também não vai mudar. Não tenho dificuldade em afirmar que o feminismo das mulheres negras passa pelo enfrentamento com as mulheres brancas. As mulheres brancas, mesmo tendo lutando contra o patriarcado, não tiveram nenhuma dificuldade de exercer o poder sobre as mulheres negras. Então, é aquele que está subjugado que cria uma linha de desconforto para o outro.

 “A supremacia branca é muito contraditória.”

Como a senhora viu a recente polêmica questão de Charllotesville, nos EUA, onde supremacistas brancos e grupos antirracismo entraram em confronto?

Nos Estados Unidos e na sociedade brasileira o racismo está tão entranhado que volta e meia eclode. Então, temos sempre essa impressão do retrocesso. […] O branco, quando afirma sua supremacia, se considera imbatível, com todos os direitos e numa posição superior. Hoje, com tudo que se discute, as consequências com a questão de raça… A história do holocausto judaico, por exemplo, ainda está muito viva para gente refletir. Aí você vê não só uma política de extermínio, porque se a gente for pensar, no Brasil, Abdias Nascimento (dramaturgo e político) já falava do genocídio do negro. E até que ponto o Estado brasileiro se preocupa com a mortandade de jovens negros?

Aqui, onde essa supremacia branca pode ser percebida?

No Brasil há outras formas de a supremacia branca se afirmar. E a supremacia branca é muito contraditória. No caso das ações afirmativas, o que mais se fala é do sistema de cotas raciais (que têm como principal função a reparação de desigualdades econômicas, sociais e educacionais nas universidades, reservando vagas para o ingresso de cidadãos pretos, pardos e indígenas). Alguns intelectuais brasileiros são contra o sistema de cotas. Pessoas com o entendimento sobre a dívida que o Estado brasileiro tem com os povos africanos e indígenas, que na hora de tornar teoria em prática se valem dessa supremacia e não abrem mão mesmo. Fazendo um paralelo com o que aconteceu nos Estados Unidos e o que acontece aqui, talvez os brancos norteamericanos sejam mais sinceros.

“Ainda não tenho esses elementos.”

(Sobre criar um protagonista branco)

Se vê escrevendo uma história em que a personagem central seja branca e o contexto não seja racial?

Já pensei um pouco sobre isso. Mas ainda não tenho esses elementos. Em “Ponciá Vicêncio”, os brancos sempre aparecem como dominadores e os negros, entre aspas, dominados. Em “Beco da Memória”, o coronel é o branco, o dominador.  Até agora as experiências históricas que tenho com pessoas brancas não me permitiram, até porque no meu trabalho trago muito a questão da memória. Para criar um romance que mostre uma relação apaziguadora entre brancos e negros, preciso estar convencida que exista coletivamente relações profundamente amigáveis e fraternais. Nas relações individuais tenho várias amigas brancas. Mas ainda acho que são relações de exceção.

A senhora já disse que em matéria de fé, quanto mais proteção melhor. Qual a sua crença?

Na minha juventude participei da Juventude Operária Católica, que era a ala progressista da Igreja nos anos 1960. Tão progressista que foi considerada subversiva. É a Igreja Católica que me dá base para as questões sociais, mas não foi a Igreja que me deu base para pensar no racismo. E à medida que fui estudando, percebi a cumplicidade do cristianismo com a colonização. Se for olhar o cristianismo na perspectiva da colonização, não vou acreditar em nada, não é? A gente sabe muito bem o papel que a Igreja teve. Inclusive a nossa perda de referência quando se tem que assumir um nome cristão. Fui batizada no dia da Imaculada Conceição, por isso me chamo Conceição. No Rio de Janeiro, conheci o Candomblé. Quando descobri que a Imaculada Conceição foi subterfúgio para a gente continuar cultuando Oxum, aí passei a negociar com as duas (risos). Tenho um poema, “Meu rosário”, onde nas contas falo o ‘Padre Nosso’ e canto para a mamãe Oxum. Como proteção tenho a Anastácia, mãe do povo negro. E aí a gente vai, com toda força positiva. E com o desejo muito grande de recuperar, o que é impossível, essa outra cosmogonia que a colonização tentou apagar, mas não apagou.

Pensa na sua finitude?

Minha primeira preocupação sobre a minha finitude é uma preocupação bem prática. É porque eu tenho uma filha especial. Isso às vezes me balança muito. Mas cada vez mais minha menina está se tornando independente. Hoje, se tiver alguém para gerenciar a casa, ela se vira. Isso é uma preocupação prática. E a outra preocupação, quando penso na minha finitude, é que eu gosto muito de viver. Mas aí tenho um exemplo que procuro seguir, que acho a vida vai me permitir. A minha mãe vai fazer 95 anos. Então, a gente tem esse pacto de obedecê-la, de seguir o exemplo dela. Hoje, quando penso na minha finitude, e aí é muito mais uma questão de você compensar a sua limitação humana, de compensar essa impossibilidade de ser eterna, minha finitude não será tão finitude porque acredito nessa obra que deixo. Hoje, como a gente lê Maria Firmina dos Reis, Lima Barreto, Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus (escritores mestiços e/ou negros)… Você vê  essas pessoas sendo recuperadas, uma leitura que é feita a partir da nossa experiência, de uma cosmogonia negra, uma maneira do negro se colocar no mundo… E como a história e esses textos nos fazem bem. Então tenho esperança que amanhã os meus textos possam de certa forma aplacar essa finitude.

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