Celso Amorim

_96A8701.BXCelso Amorim, diplomata | por Heloisa Eterna | foto Marcos Serra Lima | Fevereiro 2017

CELSO AMORIM: O DIPLOMATA REVISITA O PASSADO E ANALISA O BRASIL E O MUNDO HOJE

Celso Amorim, a carreira de diplomata foi algo acidental ou o senhor planejou?

Nunca pensei em ser diplomata. Digo, de brincadeira, que se eu escrever minha biografia vai se chamar “Plano B”. Quando terminei o colégio era mais ligado às artes, cinema, literatura e filosofia. Fui influenciado por Sartre. E naquela época, essa filosofia dele, da existência, um aspecto que tinha muito peso era a autenticidade. Você tinha que ser autêntico. Minha mãe, praticamente foi quem tinha me sustentado, tinha expectativa de que eu seguiria uma carreira. Disse à ela que não ia fazer vestibular. Não disse que era porque queria ser autêntico… (risos). Ela olhou um pouco assustada, e falou para mim: “Casa, comida e roupa lavada. Nada para a condução nem para o cigarro”. Que eram duas coisas essenciais obviamente para a época.

Quando seu caminho começou a se cruzar com o cinema?

Fiz várias coisas. Dei aula particular, traduzi o “Mágico de Oz”. Aí fui atraído pelo cinema. Participava da federação dos cineclubes. Em um dos festivais, o Leon Hirszman perguntou se podia indicar meu nome ao Ruy Guerra (ambos cineastas) para ser assistente do filme “Os Cafajestes”, mas acabei sendo contratado como continuísta. Disse para ele: “Leon, nunca fiz nada em cinema”. Ele respondeu: “Quem fala bem, faz filme bem”.

Alguma passagem engraçada nos bastidores?

Um produtor totalmente maluco, acho que foi detetive de polícia e tinha sido gerente de produção de “Os Cafajestes”, conseguiu um dinheiro para fazer um filme. Me convidou, e a única imposição era que tinha que ser com a Vanja Orico, a famosa de “O Cangaceiro”. Na realidade, acho que não estava preparado para fazer um filme com 19 anos, meu pai não era o Luiz Carlos Barreto, se eu fizesse alguma coisa em falso não tinha ninguém para me segurar. E cinema não é  uma coisa que você possa fazer como, sei lá, poesia, não gostou rasga. Aí comecei a fazer muitas exigências. E esse produtor foi aceitando. Até que a última exigência que fiz era que não queria que a atriz fosse a Vanja Orico. Ora, quem conseguiu o dinheiro para o filme foi o pai da Vanja Orico (risos). Então aí não dava, não é? Ele falou: “Celso, chega”.

“Anos depois, fui presidente da Embrafilme. […] Veio o episódio do filme ‘Pra Frente Brasil’, que financiei, mas a ditadura não pode engolir.”

E como surgiu o Itamaraty?

Um colega meu passou no exame do Itamaraty. Aí pensei: “Se fulano de tal passou, também posso tentar”. Eu não podia voltar para a minha mãe e dizer que ia fazer faculdade de quatro anos, depois de ter ficado dois anos, na opinião dela, da época, como vagabundo. Fazer cinema, jornal, tudo isso para ela era vagabundagem. Mas o Rio Branco era só dois anos. Gostava de política externa, apreciava o San Tiago Dantas (ex-ministro das Relações Exteriores e da Fazenda, um dos precursores da política externa independente), as relações com Cuba. Entre o primeiro e o segundo ano no Rio Branco, houve o golpe militar. Passei os próximos anos da minha vida como diplomata pensando como sair do Itamaraty.

Ainda houve uma retomada da carreira com o cinema, o senhor esteve à frente da Embrafilme…

Já tinha dois filhos; hoje tenho quatro e dez netos. Fui sendo empurrado para ficar no Itamaraty, de alguma maneira. Anos depois fui presidente da Embrafilme. Aí veio o episódio “Pra Frente Brasil”, (um dos primeiros filmes a retratar a repressão militar) que financiei, mas a ditadura não pode engolir. Tive que pedir demissão, voltei para o Itamaraty. Aí foi indo, indo e acabei sendo ministro duas vezes com o Itamar e com o Lula (também no governo de Dilma Rousseff, como ministro da Defesa).

Como era ser diplomata durante a ditadura militar?

Era muito difícil representar o Brasil no exterior. No pior período, o do Médici (Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil de 1969 a 1974), estava em Londres e depois na missão junto a OEA. Me lembro de uma cena que ficou marcada, quando recebi a revista Veja, estava no metrô. Deu uma pequena abertura, algumas noticias saíam. A capa era sobre tortura, a morte do Chael (Chael Charles Schreier, estudante de medicina na Santa Casa de São Paulo até entrar para a luta armada). Eu tinha um sentimento de vergonha. Eu, um diplomata brasileiro, e aquele caso absolutamente trágico.

No final das contas, o senhor acha que foi autêntico?

É plano B. Gosto de política externa, de política no bom sentido da palavra, trabalhar para melhorar a vida das pessoas. Na minha época de jovem, o cinema era muito ligado à política, o Cinema Novo estava começando. Era o Rio descobrindo o Nordeste. E isso é política no sentido de buscar mudanças na sociedade. Também não posso dizer que não tenha sido autêntico, mas foi difícil em certos momentos. Depois, a ditadura começou a abrir brechas, na parte de política externa do período Geisel (general Ernesto Geisel, presidente do Brasil de 1974 a 1979) teve um pouquinho de avanço com relação à África, China, Oriente Médio. E aí não tinha mais o desejo de sair do Itamaraty.

“Quem vê filme de Bergman sabe que existem violências que não são violências pelas armas.”

O filme “Aquarius” marcou posição política em Cannes, ao se manifestar contra o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. O senhor acha que artistas deveriam ter postura mais clara, principalmente em momentos cruciais?

Acho fundamental. A atitude do diretor (Kleber Mendonça Filho) e da Sonia Braga, que tem muita repercussão, foi importante. Fiquei orgulhoso de ver os artistas brasileiros se posicionando contra uma violência que foi o impeachment. Violência organizada, mas violência. Violência não é só pelas armas, há outras formas. Quem vê filme de Bergman sabe que existem violências que não são violências pelas armas.

E como o Brasil está sendo visto no exterior?

Hoje, o Brasil está muito marginalizado porque a política mudou. O país se auto-desqualificou ao adotar uma posição de crítica violenta ao governo Maduro (Nicolás Maduro, presidente da Venezuela). Não vou defender tudo que ocorre no governo Maduro, mas não é assim que se age na política externa. Você tem que procurar o diálogo. Como dizia o Kofi Annan (ex-secretário-geral da ONU), não é preciso dialogar com seus amigos, é preciso dialogar com os adversários. Isso que é necessário na diplomacia. Mas, hoje, essa compreensão não existe.

É possível não ser corrupto no Brasil fazendo política?

Individualmente, sim. Mas o sistema político brasileiro induz à corrupção, e tem que ser reformado. Uma pessoa leva vantagem, outra pensa que está só ajudando o partido e os fins justificam os meios. Sou a favor de impedir que empresas financiem campanhas políticas. A mídia faz propaganda contra, mas se você não tiver um sistema de financiamento público… A reação da população pode até ser: “Ah, não vou financiar esses ladrões”. Mas não sabe que já está financiando com dinheiro dela, com dinheiro roubado. Também teria que haver alguma coisa na mídia. Não sou especialista nisso, mas o que ouço dizer é que nosso modelo de regulação da mídia é muito menor até que o dos EUA, onde há mecanismos contra o monopólio. Que a gente saiba, o New York Times não é dono da CBS, e vice-versa.

 “O que a Europa está recebendo é o refluxo do colonialismo.”

(Sobre a crise dos refugiados)

Como o senhor avalia a crise dos refugiados na Europa?

A principal razão da saída do Reino Unido da União Europeia está ligada à migração, mas indiretamente também aos refugiados. Uma coisa que é preciso dizer: os países que mais recebem refugiados são a África do Sul, Quênia, Líbano e Jordânia. Mas isso não é crise. Só é crise quando chega na Europa. Como é que se resolve isso? Bom, o caso da Síria é paroxista, porque há uma guerra civil brutal. A principal causa dessas guerras do Oriente Médio foi o bombardeio dos EUA ao Iraque, que destruiu sua estrutura estatal. E foi lá que o Estado Islâmico inicialmente se instalou. O que a Europa está recebendo é o refluxo do colonialismo. Essas armas todas que os caras usam lá, foram os europeus e os americanos que venderam.

Existe uma solução?

Eu teria esperança numa ordem econômica mundial mais justa. Porque ninguém sai da sua terra à toa se a situação não estiver muito ruim. Se os países pudessem exportar aquilo que produzem competitivamente, sem ter que enfrentar os subsídios americanos e europeus, isso ajudaria. Países africanos, produtores de algodão, estão deixando de produzir porque não conseguem enfrentar os subsídios americanos. Não resolve a questão da Síria, mas o problema da imigração e dos refugiados ditos econômicos. Esses dependem de reforma do comércio internacional e programas de ajuda mais bem pensados. O que nós vemos nos Estados Unidos, o Donald Trump (presidente dos EUA), é o contrário.

O senhor é um otimista com relação ao Brasil e ao mundo nos próximos anos? 

Para a humanidade ou para o Brasil sou um otimista a longo prazo. Vamos enfrentar muitos problemas. E o momento é de maior crise por esse crescimento da direita e das dificuldades econômicas. Não tem muito para onde fugir. Todos os lugares estão assim. Os EUA, a Europa. Mas acho que a médio prazo a racionalidade acabará se impondo.

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