Amyr Klink

PBAmir01Amyr Klink, navegador | por Heloisa Eterna | foto Alexandre Campbell | Março 2017

AMYR KLINK: O PRAZER DE SE ISOLAR NA ANTÁRTIDA E DE CONSTRUIR MALUQUICES

Amyr Klink, cada vez mais as pessoas reclamam da falta tempo. Acontece o mesmo com você?

Claro que sim. Estamos vivendo uma espécie de revolução incrível nos últimos anos. A gente assumiu tarefas novas. Cada um é seu publicitário, seu editor, seu patrão, seu funcionário. Fazemos coisas que antigamente a gente delegava. Hoje essa incrível, não sei se saudável, conectividade faz com que a gente esteja ligado o tempo todo em tudo. Procuro botar um foco muito preciso, muito fechado nas coisas que quero fazer. E quando a gente tem projetos que envolvem dois, três anos de preparação ou obras complicadas… Tenho consciência da escassez de tempo, mas gosto de fazer as coisas com calma, de sentir que estou avançando.

Você já esteve umas 40 vezes na Antártida. Por que sempre volta?

Gosto muito da experiência de estar nessa região, não pelo espetáculo visual e da beleza. Mas o fato é que o isolamento da Antártida, a dificuldade de acesso e a força da natureza impõem um ambiente humano que me encanta. Volto sempre porque gosto de ver que lá relevamos quase todas as diferenças que construimos entre origem, religião… Já fui em barcos ultraradicais até naviozinhos de turismo com turistas americanas gordinhas (risos). De certa maneira você sintetiza os problemas humanos, os interesses culturais, técnicos. Essa pressão externa provoca reações muito curiosas. A gente se diverte com um bando de russos loucos, franceses contrabandistas, pesquisadores da Ucrânia, recordistas de caminhadas no gelo. É uma espécie de circo humano imposto pelo meio.  O que me atrai é ver a atitude das pessoas nesse ambiente.  Dá uma certa esperança no ser humano. Somos uma espécie de bicho que tem algumas pequenas diferenças, mas é possível se entender muito bem.

Um dos grandes riscos de passar o inverno na Antártida é ficar com o barco preso no mar congelado, e só sair dali no inverno seguinte. Mas você construiu um barco durante cinco anos justamente para ter essa experiência e “ser proprietário do seu próprio tempo”. Foi tão fácil assim, ficar sozinho por 15 meses?

Resolvi conviver com o risco. Falava com radioamadores, e para muita gente era surpreendente ficar lá sozinho. Mas o fato é que você não está totalmente isolado. Tinha um monte de gente aqui, esperando, preocupada, torcendo para eu voltar logo e pagar as contas (risos). Gostava de observar a reação das pessoas, que perguntavam: “Com quem você vai conversar?”.  A gente tende a achar que é uma experiência ruim ou extrema. É uma experiência gratificante, porque você depende da sua competência e se despe um pouquinho de preconceito, de um certo orgulho. Por exemplo: não sei costurar, não sei regular a maldita bomba injetora. Você vai o tempo todo tateando as suas limitações. Eu tinha essa expectativa: o que aconteceria se ficasse um ano sem ver um ser humano? E quando você está lá, descobre que o tempo voa.

“O que é terrível, assustador, é quando você tem o meio contra você, te impedindo de avançar.”

Você faria essa invernagem novamente sozinho?

Faria. Mas hoje em dia é proibido navegar em solitário na Antártida. Um veleiro tem que ser conduzido como se fosse um navio. Ele tem obrigações de vigília, de reportar condições, coisas que você não consegue mais realizar sozinho. Tenho muita vontade de fazer isso de novo, talvez quando puder trabalhar de lá. Hoje tem a dificuldade de conexão via internet, ainda é caro. Mas daqui pouco tempo vai ser possível ter conexão, e vai ser como tirar férias ou ano sabático.

Numa viagem com o veleiro Paratii, pelo Oceano Pacífico, ao sul da Tasmânia, você ficou 50 horas sem dormir. Velejou de costas para a proa, surfando ondas gigantescas que vinham de todas as direções, e descobriu um jeito de pilotar ao contrário. Nessas horas, como você domina o medo?

Tenho muito medo, não sou imortal. Um baita medo de cair na água, de cometer um erro. Mas o medo que mais incomoda não está ligado a uma besteira que eu possa fazer. Tenho medo de machucar outras pessoas, de causar dano para terceiros. Isso é uma das coisas que, assim… eu não conseguiria conviver com isso. A maioria dos meus amigos franceses que vão regularmente para esses lugares, para o Ártico, já perdeu tripulantes no mar, ou teve acidentes em escalada, com perna quebrada, amputada. Eu nunca tive um acidente. Quer dizer, já tive mas nunca causei dano físico para outra pessoa.

Mas isso se deve ao cuidado com a segurança, não?

Não sou obsessivo com esse negócio de segurança. Não gosto de falar, mas não uso cinto de segurança no barco. Você tem que ter muita agilidade, correr de uma lado para outro. O que não pode é cair. Mas se tem oito pessoas na tripulação, aí tenho que impor o uso do cinto. Quanto estou sozinho, não uso. Mas não vou fazer a apologia da irresponsabilidade.

O que mais te incomoda numa viagem dessas?

Não é o desconforto físico nem a pressão do meio externo. É a sensação de não avançar. Quando pego essas tempestades escabrosas, se elas são a favor da direção para onde quero ir, estou feliz, sei administrar isso. Dá um baita medo de quebrar alguma coisa, dá. Mas dá também um baita prazer saber que você está avançando mais rápido. A velocidade é um negócio que me fascina nessas jornadas longas. O que é terrível, assustador, é quando você tem o meio contra você, te impedindo de avançar.

“Não tenho nenhuma crença em uma entidade que vai me salvar.”

Qual foi a pior travessia que você já fez?

A última viagem para a Antártida, quando fui buscar o Paratii II, com tripulação reduzida, foi uma das piores que fiz na minha vida. Éramos dois para tocar um barco de 100 pés, e pegamos dez dias de vento muito forte na cara. Nas duas semanas seguintes, já indo para o Brasil, a gente pegou um vento maior e muito pior, mas aí foi a coisa mais deliciosa do mundo porque era um vento a favor.

Apesar de ter estudado em colégios católicos, você em nenhum momento, durante ou depois de um acidente, rezou ou agradeceu a Deus. Agradeceu ao barco. Em ocasiões de extremo de perigo, pensa em alguma outra força maior?

Não. Decididamente, não. O problema é que no Brasil é muito complicado você falar que não acredita em Deus. Não acredito, e ponto. Adoro o assunto da crença, da fé. Fico fascinado com o poder que a religião tem de movimentar as pessoas em direções absurdas. Mas não tenho nenhuma crença em uma entidade que vai me salvar. Quando você está nesses lugares, você fica muito pragmático. Pode pedir ajuda, sentar, rezar. Mas o fato é que você só vai sair dali se fizer tudo direitinho, arregaçar as mangas, não cometer nenhum erro e tocar o barco para a frente.

Em depoimento à jornalista Isa Pessoa, no livro “Não há tempo a perder” (editoras Foz e Tordesilhas), você menciona casos de náufragos. Você tem medo da morte?

Tenho bastante medo, mas tenho uma curiosidade natural pela morte. Falo: ah, por que morreram ou quase morreram? Puxa vida, onde que eles erraram? Ou… nossa, como o cara conseguiu aguentar 141 dias sem comida? Tenho uma curiosidade autêntica sobre essas questões de sobreviver ou morrer.  Quando eu era um completo ignorante das coisas do mar, comecei a juntar relatos de naufrágios bem e mal-sucedidos. Em um deles, com 150 pessoas, seis  sobreviveram. Mas você não morre de sede ou fome em cinco dias. O que matou aquelas pessoas foi a convivência, a hostilidade, o desespero para se apropriar da última água. As histórias felizes escondem muitas coisinhas, mas as dramáticas ensinam mais.

“No dia a dia você não tem consciência de que vai naufragar, de que o mundo vai acabar.”

A exemplo do que faz à bordo, como controlar na vida o estresse com naturalidade? Existe uma receita?

Não tem. Tenho ansiedade como qualquer pessoa. Percebi uma coisa com o tempo, uma coisa que me encanta do mundo da navegação. Quando você está num barco, você sabe que a desgraça do barco afunda. Quando você tem consciência explícita que o troço afunda e morre todo mundo, você consegue controlar os seus desvios de comportamento. No dia a dia é difícil, porque você não tem consciência de que vai naufragar, de que o mundo vai acabar.

O barco da travessia solitária, de cem dias a remo da África ao Brasil, voltava ao prumo mesmo se capotasse, como um joão-teimoso de madeira. O que você fez com ele?

O I.A.T ou Paraty, como o barquinho também é conhecido, ficou muito tempo no Museu Nacional do Mar (em São Francisco do Sul, Santa Catarina), que entrou em crise. Acabei tirando de lá. Foi restaurado, está absolutamente impecável. Não sei o que vou fazer com ele, porque é um trambolho para guardar em casa. Mas é um barco com um design bonito, inspirado nos barcos de pescadores clássicos, como os noruegueses, os maranhenses.

Você venderia?

Não, não. Talvez emprestasse. Ele está perfeitinho para fazer uma outra travessia (risos).

Existe uma viagem que você considera a viagem dos sonhos, algo que você não realizou?

O Paratii II é um barco construído para tentar fazer uma das passagens polares do Ártico, que nunca fiz.  Vai do norte do Atlântico, na Escandinávia, até o Estreito de Bering passando pela Rússia. Mas descobri que o grande desafio da viagem não é a dificuldade de navegação no Ártico, mas sim burocrático. Os russos são muito corruptos nos portos. Tem também uma questão política, diplomática e econômica sobre quem vai controlar a passagem de navios pelo Ártico russo. Nunca consegui resolver esse problema. Um dos nossos primeiros clientes da marina lá em Parati tentou fazer essa passagem e quase perdeu o barco por conta dessa instabilidade dos portos russos. Percebi que é o tipo de risco que não quero correr.

“Por alguma razão, coisas dramáticas ou tristes não me fazem chorar.”

Além de navegar, qual seu outro grande prazer?

Gosto de projetar e construir estruturas simples, eficientes e leves. Isso me levou a estudar a matemática do Fuller (Richard Buckminster Fuller, designer americano). Virei um especialista em desenhar geodésicas. É muito difícil explicar para as vizinhas aqui do lado de casa o que são essas estruturas malucas, qual a utilidade disso. Mas consegui ganhar dinheiro com elas. Tem sempre um louco que compra. Me agrada muito essa experiência de imaginar uma coisa absurda e executar.

Tem algo que você ainda gostaria muito de construir?

Trabalhei na área imobiliária em Parati e detestei, peguei um bode disso tão grande, dessa obsessão besta da casa própria, de ser dono de um pedaço de terra, de castrar um pedaço do planeta para fazer um túmulo. Pensava que eu queria viver do mar. Comecei a construir estruturas flutuantes. Brinco com a ideia de criar cidades flutuantes. Minha marina é toda flutuante, onde trabalham quase 700 pessoas sobre o mar. Se eu quiser pegar meu negócio e mudar de lugar, eu mudo.

 Você diz que não chora em momentos de tristeza, como por exemplo quando sua mãe, que era uma querida, faleceu. O que te faz chorar?

Sou um cara que chora muito fácil. Choro de emoção. Rir é um negócio que me faz chorar. Mas, por alguma razão, coisas dramáticas ou tristes não me levam a chorar. Coisas emocionantes, sim. Um negócio que me faz chorar é uma chegada de maratona. Tenho dificuldade de correr, mas corrida para mim sempre foi um jeito muito fácil de ter preparo físico. Mas sei da dificuldade que é uma maratona, o desafio. É uma façanha humana que admiro profundamente. Fico muito emocionado.

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